ENQUANTO ISSO NO BRASIL...



























Nick se mudara para a grande casa branca dos Fedden em Notting Hill havia poucas semanas. Seu quarto ficava no sótão, que continuava a ser o espaço das crianças, com os segredos e a rebeldia dos adolescentes pairando no ar. O quarto muito bem-arrumado de Toby ficava no alto da escada, o de Nick logo abaixo da clarabóia e o de Catherine na outra extremidade; Nick não tinha irmãs ou irmãos, mas se considerava ali o filho do meio. Foi Toby quem o levou para lá durante umas férias a fim de que ele passasse uma “temporada” em Londres, longe de sua família bem menos glamourosa, e a presença seminua do amigo ainda dominava a passagem do sótão. O próprio Toby talvez não soubesse por que ele e Nick eram amigos, mas aceitava de boa vontade essa amizade. Depois que eles se formaram em Oxford, Toby raramente estava em casa, e Nick passou a ser considerado como um amigo pela irmã caçula e pelos pais hospitaleiros. Um amigo da família. Alguma coisa em Nick lhes dizia que ele era confiável, uma gravidade, uma certa elegância tímida, algo não muito aparente para ele próprio, que fez com que a família concordasse em aceitá-lo como inquilino. Quando Gerald venceu em Barwick, eleitorado natal de Nick, o acontecimento foi aclamado jovialmente por ter a lógica da poesia ou do destino.
(...)
Na sua primeira visita a Kensington Park Gardens ele foi recebido por Toby, que o deixou sozinho na casa e avisou que sua mãe chegaria logo depois. Quando Nick ouviu a porta da frente abrir e fechar, desceu e apresentou-se à senhora bem apessoada, de cabelo preto, que organizava a correspondência no hall. Falou animadamente sobre o retrato que tinha visto na sala de estar, e só depois de algum tempo, ao ver o sorriso de deferência da mulher e ao perceber seu forte sotaque, é que compreendeu que não estava falando com a respeitável Rachel e sim com a governanta italiana. É claro que não havia nada de errado em trata-la com tanta delicadeza, e as opiniões de Elena sobre Guardi eram provavelmente tão interessantes quanto as de Rachel e mais que as de Gerald, mas aquele momento que ela parecia lembrar como algo encantador, Nick evocava como uma pequena gafe.
Mesmo assim, sentado no banco ao lado de Toby, sentindo nele o cheiro de sabonete e café, encostando ligeiramente seu joelho no dele para pegar o açúcar, Nick sentiu que tinha tido sucesso. Isso acontecera um ano atrás, e agora era uma lembrança rica em associações. Pegou a agenda que mal tinha sido olhada e passou a mão na capa macia, como que para compensar o descaso de Toby com o presente, e também, de forma remota, como se estivesse alisando uma parte cabeluda e quente do amigo. Toby estava falando em ser jornalista, e aquele presente era quase um insulto, uma tentativa relapsa, revelando nos pais um senso de mero dever que o alto preço do presente disfarçava. A agenda não abria totalmente, e alguns endereços ou “idéias” a teriam completado. Era difícil imaginar Toby usando-a em uma fila de piquete ou acotovelando-se para conseguir uma resposta de um ministro rodeado de câmeras.
- Você deve ter ouvido o falatório sobre Maltby, é claro - disse Toby.
Imediatamente Nick sentiu o ar da sala começar a formigar, como no início de uma reação alérgica. Hector Maltby, um assessor do ministro das Relações Exteriores, tinha sido apanhado com um garoto de programa no seu Jaguar, no castelo de Jack Straw. Renunciara rapidamente ao posto e, ao que parecia, ao seu casamento. O caso fora veiculado em todos os jornais na semana anterior; era uma bobagem Nick sentir vergonha daquilo, corando como se ele próprio tivesse sido apanhado no Jaguar. Muitas vezes, quando o assunto do homossexualismo vinha à baila, e mesmo na cozinha tolerante dos Fedden, ele ficava apreensivo quanto ao que poderia ser dito - algum insulto indireto que tivesse de engolir, uma brincadeira de mau gosto. Mesmo o caso absurdo do gordo Maltby, uma caricatura do “novo” Tory ganancioso, parecia ser uma alusão ao seu próprio caso velado; numa breve crise de paranóia, parecia levantar suspeitas sobre seu interesse pela linda perna bronzeada de Toby.
- O bobão do Hector - disse Gerald.
- Não ficamos assim tão surpresos - ponderou Rachel, com sua ironia característica.
- Vocês o conheciam? - perguntou Toby, no seu novo estilo de “entrevista”.
- Um pouco - respondeu Rachel.
- Não muito bem - disse Gerald.





















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O timbre aveludado e a mão intensa


Foi justamente nesse dia em que crianças brincavam ao redor da minha casa na raiz de uma colina ao norte da Califórnia, foi justamente nesse dia aí que acordei com a gritaria de crianças endiabradas ao redor da minha casa, sim, no meu pátio todo irreal tamanha a primavera pelos jardins da baía de San Francisco, foi nesse dia sim, eu bem me lembro, que ao tomar a primeira água da manhã na cozinha já ensolarada cheguei à conclusão de que precisava me apaixonar. Saí de casa em meio à algazarra infantil, com os livros do curso que eu dava na Universidade de Berkeley numa das mãos, na outra uma velha sacola de supermercado atulhada de roupas para a lavandaria. A porta da lavanderia fez como sempre tlim-tlim quando a abri. A bela chinesa com seu inglês todo arrevesado perguntando-me o mesmo de sempre:

- Can I help you?

É... eu chegava com a sacola atulhada de roupas para lavar e não dizia nada, apenas esperava a sua voz de chinesa recatada, uma voz que parecia pertencer a uma natureza recém-aflorada para tão-só aquilo: estar ali e não em outro lugar, a perguntar no seu inglês parco aquelas linhas sem muita sustentação, quase rarefeitas, linhas que se apresentavam como vindas de um estado de abandono que eu ainda não pudera imaginar.

- Can I help you?

A água que havia pouco eu bebera como que escorregou de novo dentro de mim, uma água matriz, de uma fonte escondida - e decidi o que até então nem tinha calculado, como se desta fonte imemorial tivesse escorrido também esse meu tonto gesto: levantei a sacola de ponta-cabeça e as minhas roupas se espalharam sobre o balcão, afogando uma das mãos da bela chinesa. Senti a minha mão também por ali, esquecida debaixo daquele monte de roupas, toalhas, lençóis. Os tecidos sobre nossas mãos exalavam o pesado cheiro de uso. Avancei meu braço bem devagar, quase um caranguejo. As roupas sobre o balcão nem se mexeram. Cobri a mão da bela chinesa. Que não a retirou.

- Não tem vontade de conhecer o Brasil?

A voz me saiu em sussurro mas num inglês pausado.

- Passei a infância em São Paulo.

Ela contou a novidade entrando num português de razoável pronúncia brasileira, ao mesmo tempo que abria pela primeira vez um sorriso franco para mim. As nossas mãos suavam muito debaixo de cheiro de cerrado uso daquelas roupas, toalhas, fronhas, lençóis.

- Busco quando?

- Amanhã...

A porta fez tlim-tlim. Entrava um homem com duas sacolas transbordantes. O homem me olhou com o ar... não sei bem... olhar de quem pescara alguma coisa ali. Passei a mão pela minha calça, me olhei no espelho: levemente excitado... Diante do espelho fiquei alguns segundos, até considerar que no meu corpo já se apagara qualquer vestígio do momento anterior. Saí dizendo até amanhã. Na calçada repeti como se em gota a gota: A-té-a-ma-nhã. No café ao lado pedi um chá preto. Então pus-me a olhar cada coisa daquele recinto como se fosse a última, sei lá, e meio atarantado por estar a viver uma lentidão extremosa que aquele país costumava rechaçar, falei baixinho, supliquei: me dê saúde até amanhã, em surdina sim, olhando agora aqueles estudantes debruçados sobre mesas a ler e escrever. Estavam todos tão absortos em seus estudos que ninguém ouviu a minha voz arisca a implorar, a rezar talvez. Me dê saúde até amanhã, repeti um pouco mais alto. Uma estudante pareceu ter ouvido: levantou a cabeça da página, olhou-me e, sinceramente, era isto o que estava acontecendo ali, exatamente isto, e ali: a estudante a me olhar era a mesma mulher da lavandeira, sim, a chinesa que eu conheci de cor, a me olhar. Quem sabe gêmeas? Sondei com meus botões. Me dê saúde até amanhã veio-me agora um tanto alto, no meu velho português. A chinesa, como se sofresse um atordoamento, explodiu uma risada, sem pudores diante daqueles estudantes com implacável performance de concentração. Ela gargalhou com seus dentes perolados, como se euforia e tempestade. E eu não fiquei. Fui tomando meu chá preto no copo de plástico pelas calçadas, a cantar baixinho o hino do meu clube da mocidade que me vinha inteiro agora, começando assim: me dê saúde até amanhã, saúde que garanta o timbre aveludado e a mão intensa, me dê, me dê saúde eu peço, até amanhã... E o mesmo me acontecia ainda: olhava cada coisa como se o possível encanto delas fosse durar só até a próxima esquina. Olhava cada coisa como se tudo me pertencesse, parte integrante de mim, como o fígado, a unha, pescoço, pé. Posso morrer, meditei. E de fato logo depois senti uma ferroada no coração. Só me deu tempo de trazer a mão ao peito e pensar com fulminante convicção que o resto da história realmente não me interessava mais, que estava desimpedido da inércia da duração, alguma coisa assim: que eu já tinha atravessado uma boa extensão, que agora só me interessava mesmo era boiar como já fazia naquele instante sobre a superfície do dia, a ponto de poder mirar o sol de frente, cegar-me, exaurir-me, até entrar de vez no sono molecular. Escuta aqui, não foge, não terminou, ainda tenho o que contar, ouvir, olha ali aquele ponto ínfimo a flutuar rente ao tronco, não te aproxima muito que com a força da tua respiração ele se afasta para longe, voa...

A moça chinesa abre a porta da lavanderia, senta-se no degrau, canta a melodia de seus ancestrais. Quem foi, quem é, ela já não sabe. Sabe de um sonho amável, iluminado por uma lua ninfa, mas que já passou, já derreteu, evaporou que sabe...

Berkeley, maio de 98



Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.