Mostrando postagens com marcador POESIA BRASILEIRA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador POESIA BRASILEIRA. Mostrar todas as postagens

Poesia-"O mundo que venci deu-me um amor" de Mário Faustino(1930-1962)

            O mundo que venci deu-me um amor
            Um troféu perigoso,este cavalo
            Carregado de infantes couraçados.
            O mundo que venci deu-me um amor
            Alado,galopando em céus irados,
            Por cima de qualquer mundo de credo,
            Por cima de qualquer fosso de sexo.
            O mundo que venci deu-me um amor
            Amor feito de insulto e pranto e riso,
            Amor que força a porta dos infernos,
            Amor que galga o cume ao paraíso.
            Amor que dorme e treme.Que desperta
            E torna contra mim,e me devora
            E me rumina em cantos de vitória...  

O fabuloso Mário Faustino continua um dos melhores poetas do Brasil.Assim como continua restrito a uma "elite" intelectual.Homofobia de certos círculos acadêmicos?Ignorância pura e simples?Talvez seja porque Faustino(assim como o sublime Alexei Bueno) não se enquadre nos parâmetros anti-intelectuais de uma auto denominada "vanguarda" literária brasileira que tem por hábito incensar mediocridades.
Mas a poesia do piauiense Mário Faustino está e é cada vez mais lida.Um dos nossos maiores poetas,sem mais nem menos.

                                                                       

Poesia-Os nomes dados à terra descoberta-Cassiano Ricardo

Os nomes dados a terra descoberta


Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome
de ilha de Vera-Cruz.
Ilha cheia de graça
Ilha cheia de pássaros
Ilha cheia de luz.


Ilha verde onde havia
mulheres morenas e nuas
anhangás a sonhar com histórias de luas
e cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.


Depois mudaram-lhe o nome
pra terra de Santa Cruz.
Terra cheia de graça
Terra cheia de pássaros
Terra cheia de luz.


A grande terra girassol onde havia guerreiros de tanga e
onças ruivas deitadas à sombra das árvores
mosqueadas de sol


Mas como houvesse em abundância,
certa madeira cor de sangue, cor de brasa
e como o fogo da manhã selvagem
fosse um brasido no carvão noturno da paisagem,
e como a Terra fosse de árvores vermelhas
e se houvesse mostrado assaz gentil,
deram-lhe o nome de Brasil.


Brasil cheio de graça
Brasil cheio de pássaros
Brasil cheio de luz.

E olhem,sou patriota sim-com copa ou sem copa.E foi depois de morar fora que eu descobri as muitas virtudes do nosso país-que uma boa parte da mídia renega.

Poesia-Os Véus(de Alexei Bueno)

                  Muitos te olharão
                      Mas não verão nada.
                      Tua alma é vedada
                      Ao que as outras são.

                      Nunca a supuseram
                      Nem a imaginaram
                      As que te tiraram
                      Do que elas não eram.

                      Nunca a compreenderam
                      Os mais juntos dela,
                      Murada é a janela
                      Onde se estenderam.

                      Dela ninguém toma,
                      Nela ninguém nada,
                      Fonte envenenada,
                      Mar que não se doma.

                      Píncaro alto e nu,
                      Solitária estrada
                      Onde à luz toldada
                      Só passeias tu.

BUENO, Alexei. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: 2003. p.244-245.

Alexei Bueno(1963) é na minha opinião,o maior dos nossos poetas vivos,sem exagero.Ainda e espantosamente desconhecido,faz uma poesia que se aproxima do sublime,'reciclando' nossa herança clássica,e dando à modernidade poética uma nova voz.Fantástico.

Poesia-Encontro(Cecília Meireles-1901-1964)

Desde o tempo sem número em que as origens se elaboram,
se estendem para mim os seus braços eternos,
que um estatuário de caminhos invisíveis
construiu com a cor e o frio e o som morto de mármores,
para que em teu abraço haja imóveis invernos.

Tu bem sabes que sou uma chama da terra,
que ardentes raízes nutrem meu crescer sem termo;
adestrei-me com o vento,e a minha festa é a tempestade,
e a minha imagem,como jogo e pensamento,
abre em flor o silêncio,para enfeitar alturas e ermo.

Os teus braços que vêm com essa brancura incalculável
que de tão ser sem cor nem se compreende como existe
-são os braços finais em que cedem os corpos,
e a alma cai sem mais nada,exausta de seu próprio nome,
com uma improvável forma,um vão destino e um peso triste.

Pois eu,que sinto bem esses teus braços paralelos,
na atitude sem dor que é o rumo e o ritmo dessa viagem,
digo que não cairei com uma fadiga permitida,
que não apagarei este desenho puro e ardente
com que,de fogo e sangue,foi traçada a minha imagem.

Eu ficarei em ti,mísera,inútil,mas rebelde,
última estrela só,do campo infiel aos seus escassos.
E tu mesma achará pasmos de lagos e areias,
diante da forma exígua,sustentada só de sonho,
mantendo chama e flor no gelo dos teus braços.

Poema Visual-Artigo 6-de Rodrigo Ciríaco





imagem daqui

Invenção-Haroldo de Campos(1929-2003)

          se
                                           nasce
                                           morre   nasce
                                           morre   nasce    morre
                                                                               renasce   remorre   renasce
                                                                                                remorre   renasce
                                                                                                                  remorre
                                                                                                                              re
                                                                   re
                                                      desnasce
                                  desmorre   desnasce
              desmorre   desnasce   desmorre
                                                                           nascemorrenasce
                                                                           morrenasce
                                                                           morre
                                                                           se

Romance- de Mário Faustino(1930-1962)




ROMANCE

Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhando já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena
Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.
(imagem daqui)

Poema-Vinícius de Moraes

Amo-te tanto,meu amor...não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim,de um calmo amor prestante
E te amo além,presente na saudade
Amo-te enfim com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho,simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtudes
Com um desejo maciço e permanente.

E de ter amar assim,muitoe amiúde
É que um dia em teu corpo de repente

Hei de morrer de amar mais do que pude.

Valsa

Fez tanto luar que eu pensei nos teus olhos antigos
e nas tuas antigas palavras.
O vento trouxe de longe tantos lugares em que estivemos,
que tornei a viver contigo enquanto o tempo passava.


Houve uma noite que cintilou sobre o teu rosto
e modelou tua voz entre as algas.
Eu moro,desde então,nas pedras frias que o céu protege
e estudo apenas o ar e as águas.


Coitado de quem pôs sua esperança
nas praias fora do mundo...
-Os ares fogem,viram-se as águas,
mesmo as pedras,com o tempo,mudam.


(Cecilia Meireles)

Vidência-de Alexei Bueno.

Se os nossos olhos te enxergassem,rosa,

E não só:"É uma rosa"nos dissessem

Na vulgar gradação que nunca esquecem,

Que epifania na manhã tediosa!


Se eles vissem ao vê-la,cada coisa

E não seu nome,se afinal pudessem

Fugir da furna abstrata onde destecem

A vida,um morto partiria a lousa


Maçiça de aqui estar.Flor,nuvem,muro,

Árvore,que é uma só e não tal nome,

Se tudo entrasse o corredor escuro


Que há em nós,algo de exato se ergueria

Algo que pára o tempo e o consome,

Que alveja a noite e entenebrece o dia.


(de "Em Sonho")

Noções

Entre mim e mim,há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar,e investiga o elemento que a atinge.

Mas,nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

Virei-me sobre a minha própria existência,e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus,isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...

(Cecília Meireles)

A Máquina do Mundo(fragmento)


E como eu palmilhasse vagamente

uma estrada de Minas,pedregosa,

e no fecho da tarde um sino rouco


se misturasse ao som de meus sapatos

que era pausado e seco;e aves pairassem

no céu de chumbo,e suas formas pretas


lentamente se fossem diluindo

na escuridão maior,vinda dos montes

e de meu próprio ser desenganado,


a máquina do mundo se entreabriu

para quem de a romper já se esquivava

e só de o ter pensado se carpia.


Abriu-se a majestosa e circunspecta,

sem emitir um som que fosse impuro

nem um clarão maior que o tolerável


pelas pupilas gastas na inspecção

contínua e dolorosa do deserto,

e pela mente exausta de mentar


toda uma realidade que transcende

a própria imagem sua debuxada

no rosto do mistério,nos abismos.


Abriu-se em calma pura,e convidando

quantos sentidos e intuições restavam

a quem de os ter suado os já perdera


e nem desejaria recobrá-los,

se em vão e para sempre repetimos

os mesmos sem roteiro tristes périplos,


convidando-os a todos,em coorte,

a se aplicarem sobre o pasto inédito

da natureza mística das coisas.


(Carlos Drummond de Andrade)

ÚLTIMO TIGRE-ARMANDO FREITAS FILHO

Não é o de Blake,em chamas
nem o que entreviu Borges
através das barras,talvez até
impressas no pêlo,temperando
o ouro do ataque e do remanso
interrompido pelas tiras de sombra
indo e vindo,entre o mel e a fera.
Mas o que sobrou na Ásia ou África
-fogueira sozinha se extinguindo
em sua fúria e instinto sem a mão
que contorne a ferocidade da garra
e do olhar extremo,ou a lembrança
do seu nobre metal aceso,sol aberto
mesmo dentro da cegueira,agora
cada vez mais riscado e escurecido
pelas linhas do grafite e do carvão.

VISÃO DE CLARICE


Clarice

Veio de um mistério,partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.

Ou o mistério não era essencial.Essencial

Era Clarice viajando nele.


Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,

onde a palavra parece encontrar

sua razão de ser,e retratar o homem.


O que Clarice disse,o que Clarice

viveu para nós

em forma de história

em forma de sonho de história

em forma de sonho de sonho de história

(no meio havia uma barata ou um anjo?)

não sabemos repetir nem inventar.

São coisas,são jóias particulares de Clarice,

que usamos de empréstimos,ela é dona de tudo.


Clarice não foi um lugar -comum,

carteira de identidade,retrato.

De Chirico a pintou?Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice

só se pode encontrá-lo atrás da nuvem

que o avião cortou,não se percebe mais.


De Clarice guardamos gestos.Gestos,

tentativas de Clarice sair de Clarice

para ser igual a nós todos

em cortesia,cuidados materiais.

Clarice não saiu,mesmo sorrindo.

Dentro dela

o que havia de salões,de escadarias,

de tetos fosforecentes e longas estepes

e zimbórios e pontes do Recife em bruma envoltas

formava um país,o país onde Clarice

vivia,só e ardente,construindo fábulas.


Não podíamos reter Clarice em nosso chão

salpicado de compromissos.Os papéis,

os cumprimentos falavam em agora

em edições,possíveis coquetéis

à beira do abismo.

Levitando acima do abismo Clarice riscava

em sulco rubro e cinza no ar e fascinava-nos.

Fascinava-nos apenas.

Deixamos para compreendê-la mais tarde.

Mais tarde um dia...saberemos amar Clarice.

(Carlos Drummond de Andrade)

LÁGRIMA-IVAN MIZIARA

Sentia o cheiro
da chuva;
o grito dos pássaros,
a consistência dos musgos
antiqüíssimos.
Tentava entender a mecânica
das gotas ácidas
alinhadas,uma a uma,
o silêncio cinza das nuvens
onde o que restou do sol
pousava.
E o corpo sofria
feito ave sem asas:
de sede,se afogava.

CANÇÃO MATINAL-RUY ESPINHEIRA FILHO

a Ricardo Vieira Lima

Acorda bem cedo o homem
da casa de telha-vã
e abre janela e porta
como se abrisse a manhã.

E eis que a vida não é mais
nem triste,nem só,nem vã.
É doce:cheira a goiaba
e brilha como romã.

orvalhada.E ele caminha,
o homem,com passos de lã
para em nada perturbar
a quietude da manhã.

Já não há mágoas de perdas
nem angústias de amanhã,
pois a alma que há na calma
entre a goiaba e a romã

é a própria alma do homem
da casa de telha vã,
que declara a noite morta
e acende em si a manhã.

A INVISÍVEL CICATRIZ-DE RUY PROENÇA

nascer
é ser novinho em folha
e já deixar cicatriz

viver
é cobrir os outros
de cicatrizes
e ser coberto

mas nem tudo
são cicatrizes

algumas incisões
definitivamente
não se fecham

por isso
aliás
morremos

PAVÃO VERMELHO,DE SOSÍGENES COSTA(1901-1968)


Ora,a alegria,este pavão vermelho,

está morando em meu quintal agora.

Vem pousar como um sol em meu joelho

quando é estridente em meu quintal a aurora.


Clarim de lacre,esse pavão vermelho

sobrepuja os pavões que estão lá fora.

É uma festa de púrpura.E o assemelho

a uma chama do lábaro da aurora.


É o próprio doge a se mirar no espelho.

E a cor vermelha chega a ser sonora

neste pavão pomposo e de chavelho.


Pavõs lilás possuí outrora.

Depois que amei este pavão vermelho,

os meus outros pavões foram-se embora.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE-"MEMÓRIA'

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.