CAZUZA-BURGUESIA


JUSTIÇA MANDA SOLTAR ELIANA TRANCHESI.(SONEGAR MILHÕES E SER DONA DA DASLU PODE.AGORA, SE VOCÊ FOR FAVELADO(A) E ROUBAR UM POTE DE MANTEIGA NO SUPERMERCADO,PREPARE-SE PARA UM ROSÁRIO DE HORRORES,POIS NENHUM DESEMBARGADOR VAI MANDAR SOLTAR VOCÊ).SERIA CÔMICO SE NÃO FOSSE MAIS QUE TRÁGICO.ATÉ QUANDO VÃO DURAR ESSES PRIVILÉGIOS ESCANDALOSOS?

nascer
é ser novinho em folha
e já deixar cicatriz

viver
é cobrir os outros
de cicatrizes
e ser coberto

mas nem tudo
são cicatrizes

algumas incisões
definitivamente
não se fecham

por isso
aliás
morremos


POEMA -PAULO HENRIQUES BRITTO

O hábito de estar aqui agora
aos poucos substitui a compulsão
de ser o tempo todo alguém ou algo.

Um belo dia(por algum motivo
é sempre dia claro nesses casos)
você abre a janela,ou abre um pote

de pêssegos em calda,ou mesmo um livro
que nunca há de ser lido até o fim
e então a idéia irrompe,clara e nítida:

É necessário?Não.Será possível?
De modo algum.Ao menos dá prazer?
Será prazer essa exigência cega

a latejar na mente o tempo todo?
Então por quê?
E neste exato instante
você por fim entende,e refastela-se

a valer nessa poltrona,a mais cômoda
da casa,e pensa sem rancor:
Perdi o dia,mas ganhei o mundo.

(Mesmo que seja por trinta segundos)

O RIO ANTIGO


A bela e sombria gravura de Goya-el sueño de la rázon produce monstros,parece ilustrar muito bem nosso tempo-o tempo do presente infinito,do ser humano reduzido a homo-economicus,da tecno-bio-sociedade da informação,da espetacularização ad nauseam de todos os acontecimentos,do desprezo pela cultura,da especialização.Mas também das inumeráveis resistências a esse modelo,das quais a blogosfera é um grande exemplo.Resistir a essa "razão" cínica e perniciosa é preciso,assim como é preciso procurar outros modelos de (re)construção do mundo social,de harmonização da relação homem-natureza,para impedir a destruição final do planeta.É chegado o tempo que uma outra razão acorde de seu sono.


Ora,a alegria,este pavão vermelho,

está morando em meu quintal agora.

Vem pousar como um sol em meu joelho

quando é estridente em meu quintal a aurora.


Clarim de lacre,esse pavão vermelho

sobrepuja os pavões que estão lá fora.

É uma festa de púrpura.E o assemelho

a uma chama do lábaro da aurora.


É o próprio doge a se mirar no espelho.

E a cor vermelha chega a ser sonora

neste pavão pomposo e de chavelho.


Pavõs lilás possuí outrora.

Depois que amei este pavão vermelho,

os meus outros pavões foram-se embora.

LEGIÃO URBANA-MONTE CASTELO

MONTE CASTELO-RENATO RUSSO ,COM RECORTES DA CARTA DE SÃO PAULO AOS CORÍNTIOS E DE CAMÕES.

Ainda que eu falasse

A língua dos homens

E falasse a língua dos anjos

Sem amor eu nada seria...

É só o amor,é só o amor

Que conhece o que é verdade

O amor é bom,não quer o mal

Não sente inveja

Ou se envaidece...

O amor é o fogo

Que arde sem se ver

É ferida que dói

E não se sente

É um contentamento

Descontente

É dor que desatina sem doer...

Ainda que eu falasse

A língua dos homens

E falasse a língua dos anjos

Sem amor eu nada seria...

É um não querer

Mais que bem querer

É solitário andar

Por entre a gente

É um não contentar-se

De contente

É cuidar que se ganha

Em se perder...

É um estar-se preso

Por vontade

É servir a quem vence

O vencedor

É um ter com quem nos mata

A lealdade

Tão contrário a si

É o mesmo amor...

Estou acordado

E todos dormem,todos dormem

Todos dormem

Agora vejo em parte

Mas então veremos face a face

É só o amor,é só o amor

Que conhece o que é verdade...

Ainda que eu falasse

A língua dos homens

E falasse a língua dos anjos

Sem amor eu nada seria...