SOBRE SER PÓS-MODERNO:

Ser um pós-moderno significa ter uma ideologia,uma percepção do mundo,uma determinada hierarquia de valores que,entre outras coisas,descarta a idéia de um tipo de regulamento normativo da comunidade humana e assume que todos os tipos de vida humana se equivalem,que todas as sociedades são igualmente boas ou más;enfim,uma ideologia que se recusa a fazer julgamentos e a debater seriamente questões relativas a modos de vida viciosos ou virtuosos,pois,no limite,acredita que não há nada a ser debatido.Isso é pós-modernismo.
(Zygmunt Bauman-sociólogo inglês,nascido na Polônia)

CANÇÃO MATINAL-RUY ESPINHEIRA FILHO

a Ricardo Vieira Lima

Acorda bem cedo o homem
da casa de telha-vã
e abre janela e porta
como se abrisse a manhã.

E eis que a vida não é mais
nem triste,nem só,nem vã.
É doce:cheira a goiaba
e brilha como romã.

orvalhada.E ele caminha,
o homem,com passos de lã
para em nada perturbar
a quietude da manhã.

Já não há mágoas de perdas
nem angústias de amanhã,
pois a alma que há na calma
entre a goiaba e a romã

é a própria alma do homem
da casa de telha vã,
que declara a noite morta
e acende em si a manhã.

CAZUZA-BURGUESIA


JUSTIÇA MANDA SOLTAR ELIANA TRANCHESI.(SONEGAR MILHÕES E SER DONA DA DASLU PODE.AGORA, SE VOCÊ FOR FAVELADO(A) E ROUBAR UM POTE DE MANTEIGA NO SUPERMERCADO,PREPARE-SE PARA UM ROSÁRIO DE HORRORES,POIS NENHUM DESEMBARGADOR VAI MANDAR SOLTAR VOCÊ).SERIA CÔMICO SE NÃO FOSSE MAIS QUE TRÁGICO.ATÉ QUANDO VÃO DURAR ESSES PRIVILÉGIOS ESCANDALOSOS?

nascer
é ser novinho em folha
e já deixar cicatriz

viver
é cobrir os outros
de cicatrizes
e ser coberto

mas nem tudo
são cicatrizes

algumas incisões
definitivamente
não se fecham

por isso
aliás
morremos


POEMA -PAULO HENRIQUES BRITTO

O hábito de estar aqui agora
aos poucos substitui a compulsão
de ser o tempo todo alguém ou algo.

Um belo dia(por algum motivo
é sempre dia claro nesses casos)
você abre a janela,ou abre um pote

de pêssegos em calda,ou mesmo um livro
que nunca há de ser lido até o fim
e então a idéia irrompe,clara e nítida:

É necessário?Não.Será possível?
De modo algum.Ao menos dá prazer?
Será prazer essa exigência cega

a latejar na mente o tempo todo?
Então por quê?
E neste exato instante
você por fim entende,e refastela-se

a valer nessa poltrona,a mais cômoda
da casa,e pensa sem rancor:
Perdi o dia,mas ganhei o mundo.

(Mesmo que seja por trinta segundos)

O RIO ANTIGO


A bela e sombria gravura de Goya-el sueño de la rázon produce monstros,parece ilustrar muito bem nosso tempo-o tempo do presente infinito,do ser humano reduzido a homo-economicus,da tecno-bio-sociedade da informação,da espetacularização ad nauseam de todos os acontecimentos,do desprezo pela cultura,da especialização.Mas também das inumeráveis resistências a esse modelo,das quais a blogosfera é um grande exemplo.Resistir a essa "razão" cínica e perniciosa é preciso,assim como é preciso procurar outros modelos de (re)construção do mundo social,de harmonização da relação homem-natureza,para impedir a destruição final do planeta.É chegado o tempo que uma outra razão acorde de seu sono.