A LUA E O TEIXO-SYLVIA PLATH(1932-1963)


Esta é a luz da mente,fria e planetária.
As árvores da mente são negras.A luz,azul,azul.
Gramados descarregam suas mágoas em meus pés como se eu fosse Deus,
Arranhando meus tornozelos,murmurando sua humildade.
Névoas vaporosas e espirituais habitam este lugar.
Separado de minha casa por uma fileira de lápides.
Simplesmente não posso ver onde vão dar.

A lua não tem porta.É uma face em seu pleno direito,
Branca como os nós dos dedos,terrivelmente incomodada.
Arrasta o mar atrás de si como um crime sujo;está quieta,
A boca aberta em total desespero.Moro aqui.
Duas vezes aos domingos os sinos assustam os céu-
Oito grandes línguas afirmam a Ressurreição.
E no final,sobriamente ,badalam seus nomes.

O teixo aponta para o alto.Tem força gótica.
Os olhos se elevam e encontram a lua.
A lua é minha mãe.Não é doce como Maria.
Suas vezes azuis libertam pequenos morcegos e corujas.
Se eu ainda acreditasse na ternura-
O rosto da efígie,suavizado por velas,
Derramando,sobre mim,seus olhos meigos.

Tenho caído pelo caminho.Nuvens florescem
Azuis e místicas sobre a face das estrelas.
Na igreja,os santos serão todos azuis,
Flutuando sobre bancos frios com delicados pés,
Suas mãos e pés duras de santidade.
A lua não vê nada disto.É calva e selvagem.
E a mensagem do teixo é escuridão-escuridão e silêncio.

(Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo)

ENQUANTO EU LIA O LIVRO-WALT WHITMAN(1819-1892)


Enquanto eu lia o livro,a famosa biografia:

-Então é isso(eu me perguntava)

o que o autor chama

a vida de um homem?

E é assim que alguém,

quando morto e ausente eu estiver,

irá escrever sobre a minha vida?

(Como se alguém realmente soubesse

de minha vida um nada,

quando até eu,eu mesmo,tantas vezes

sinto que pouco sei ou nada sei

da verdadeira vida que é a minha:

somente uns poucos traços

apagados,uns dados espalhados

e uns desvios que eu busco

para uso próprio,marcando o caminho

daqui afora)


(Tradução de Geir Campos)
OBS-Walt whitman para mim é uma dessas vozes que de muitos em muitos séculos nos fala direto à alma e ao coração,como um Homero,um Dante,Rimbaud,Pessoa ou Drummond.O grande rapsodo da modernidade,cantor das alegrias e das dores de todos nós.

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

O bicho,meu Deus,era um homem.

(Rio,27 de dezembro de 1947)







REFLEXÕES

"Penso que se deve conquistar as palavras vivendo-as,e que a aparente publicidade que o dicionário lhes dá é uma falsidade.Que ninguém se anime a escrever'arrabalde' sem haver caminhado por seus altos caminhos,sem havê-lo desejado e padecido como uma noiva,sem haver sentido suas cercas ,seus campos,suas luas na esquina de um armazém,como uma generosidade..."

"Um idioma é uma tradição,um modo de sentir a realidade,não um repertório arbitrário de símbolos."

"Contam que Ulisses,farto de prodígios,
Chorou de amor ao ver sua Ítaca
Verde e humilde.A arte é essa Ítaca
De verde eternidade,não de prodígios."

(Jorge Luis Borges)

O MAPA DA CÂMARA DOS DEPUTADOS

POEMA 2

Essa infausta alegria
de não sermos os únicos:
os que tudo almejam.
Esse caminho que leva
não a tesouros dourados,
mas às rutilantes sombras
dos sonhos
Essa glória que não é outra
senão a que tropeçando,
procuramos:
navios que encalham,salva-vidas
que nos jogam
Esse momento infinito
de sempres e agoras completo
em um único girar de roda;
Assim vivemos dentro de nós,
eu,um outro,alguns,
nesse agora que nos leva para
onde,não sei.
(james Penido)

DOM JOSÉ CARDOSO SOBRINHO,GIORDANO BRUNO E OUTROS HORRORES.




No dia 17 de fevereiro de 1.600,um homem foi conduzido numa carreta até a praça do Campo dei Fiori em Roma.Seu nome era Giordano Bruno,frade dominicano,filósofo,teólogo e cientista.Descendo da carreta,foi amarrado a um poste cercado de enormes feixes de palha.Havia ,pouco antes,sido condenado a ser queimado vivo pelo tribunal do santo ofício,pois o desinfeliz afirmara que a terra girava em torno do sol,que a terra não era o centro do universo e que havia uma pluralidade de outros mundos além do nosso,espalhados por incontáveis sistemas,regidos por incontáveis estrelas.E Bruno ousara afirmar até o fim que assim era e não poderia trair a si mesmo.


Nunca saberemos o que passava pela cabeça de Giordano Bruno,naquela manhã de inverno romano;o que sentiu quando viu a estaca e a palha à qual seria atiçado o fogo que o consumiria vivo.Pobre Bruno.Bravo homem que teve a honra de manter suas convicções até o fim ,mesmo diante de uma dor incalculável e inenarrável.


Esse e outros milhares de horrores pontilharam a vida cotidiana dos católicos durante séculos.Ai dos que tivessem a audácia de pensar diferente!A mensagem evangélica de Jesus foi simplesmente banida e varrida de cena,em nome de supostos dogmas ortodoxos,que custasse o que custasse tinham de ser mantidos.Defesa da escravidão,do desequilíbrio social,da opressão da mulher e dos homessexuais,silêncio ante a devastação das florestas,da exploração colonial-essas foram durante séculos ,as bandeiras sangrentas da cúpula da igreja católica.


E eis que em Março de 2009,no ocidente,que supostamente teria se livrado de toda essa batelada de pavores e práticas rançosas,o sr Dom José Cardoso Sobrinho,arcebispo de Olinda e Recife vem a público excomungar uma equipe médica que praticou o aborto numa menina de nove anos,seguidamente abusada pelo padrasto.É um insulto às leis mais elementares do bom senso e dos que se dizem cristãos,afirmar como o arcebispo que "pior que o estupro,é o aborto".Desprezo grosseiro pelo sofrimento psicológico(e físico)dessa criança,que aos nove anos teve que passar por esse calvário de abuso sexual,gravidez e aborto.Desprezo pelo bom senso da humanidade,desprezo pela mãe da garota,que sua reverendíssima também excomungou.Qual era a proposta da igreja?Que ela levasse a frente essa gravidez,com riscos gravíssimos a sua própria vida,com um enorme aumento de sofrimento psicológico?


Devemos reagir,não permitir que essas pessoas coloquem uma venda em nossos olhos.Eles não são(nem nunca foram)os donos da verdade.A morte de Giordano Bruno e de milhares de outras pessoas,das "bruxas",pelos séculos afora ,devem nos dar um elemento maior de reflexão.São esses os valores de uma sociedade sã,de pessoas que trabalham,amam e tentam ser a cada dia melhores?