ENQUANTO EU LIA O LIVRO-WALT WHITMAN(1819-1892)


Enquanto eu lia o livro,a famosa biografia:

-Então é isso(eu me perguntava)

o que o autor chama

a vida de um homem?

E é assim que alguém,

quando morto e ausente eu estiver,

irá escrever sobre a minha vida?

(Como se alguém realmente soubesse

de minha vida um nada,

quando até eu,eu mesmo,tantas vezes

sinto que pouco sei ou nada sei

da verdadeira vida que é a minha:

somente uns poucos traços

apagados,uns dados espalhados

e uns desvios que eu busco

para uso próprio,marcando o caminho

daqui afora)


(Tradução de Geir Campos)
OBS-Walt whitman para mim é uma dessas vozes que de muitos em muitos séculos nos fala direto à alma e ao coração,como um Homero,um Dante,Rimbaud,Pessoa ou Drummond.O grande rapsodo da modernidade,cantor das alegrias e das dores de todos nós.

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

O bicho,meu Deus,era um homem.

(Rio,27 de dezembro de 1947)







REFLEXÕES

"Penso que se deve conquistar as palavras vivendo-as,e que a aparente publicidade que o dicionário lhes dá é uma falsidade.Que ninguém se anime a escrever'arrabalde' sem haver caminhado por seus altos caminhos,sem havê-lo desejado e padecido como uma noiva,sem haver sentido suas cercas ,seus campos,suas luas na esquina de um armazém,como uma generosidade..."

"Um idioma é uma tradição,um modo de sentir a realidade,não um repertório arbitrário de símbolos."

"Contam que Ulisses,farto de prodígios,
Chorou de amor ao ver sua Ítaca
Verde e humilde.A arte é essa Ítaca
De verde eternidade,não de prodígios."

(Jorge Luis Borges)

O MAPA DA CÂMARA DOS DEPUTADOS

POEMA 2

Essa infausta alegria
de não sermos os únicos:
os que tudo almejam.
Esse caminho que leva
não a tesouros dourados,
mas às rutilantes sombras
dos sonhos
Essa glória que não é outra
senão a que tropeçando,
procuramos:
navios que encalham,salva-vidas
que nos jogam
Esse momento infinito
de sempres e agoras completo
em um único girar de roda;
Assim vivemos dentro de nós,
eu,um outro,alguns,
nesse agora que nos leva para
onde,não sei.
(james Penido)

DOM JOSÉ CARDOSO SOBRINHO,GIORDANO BRUNO E OUTROS HORRORES.




No dia 17 de fevereiro de 1.600,um homem foi conduzido numa carreta até a praça do Campo dei Fiori em Roma.Seu nome era Giordano Bruno,frade dominicano,filósofo,teólogo e cientista.Descendo da carreta,foi amarrado a um poste cercado de enormes feixes de palha.Havia ,pouco antes,sido condenado a ser queimado vivo pelo tribunal do santo ofício,pois o desinfeliz afirmara que a terra girava em torno do sol,que a terra não era o centro do universo e que havia uma pluralidade de outros mundos além do nosso,espalhados por incontáveis sistemas,regidos por incontáveis estrelas.E Bruno ousara afirmar até o fim que assim era e não poderia trair a si mesmo.


Nunca saberemos o que passava pela cabeça de Giordano Bruno,naquela manhã de inverno romano;o que sentiu quando viu a estaca e a palha à qual seria atiçado o fogo que o consumiria vivo.Pobre Bruno.Bravo homem que teve a honra de manter suas convicções até o fim ,mesmo diante de uma dor incalculável e inenarrável.


Esse e outros milhares de horrores pontilharam a vida cotidiana dos católicos durante séculos.Ai dos que tivessem a audácia de pensar diferente!A mensagem evangélica de Jesus foi simplesmente banida e varrida de cena,em nome de supostos dogmas ortodoxos,que custasse o que custasse tinham de ser mantidos.Defesa da escravidão,do desequilíbrio social,da opressão da mulher e dos homessexuais,silêncio ante a devastação das florestas,da exploração colonial-essas foram durante séculos ,as bandeiras sangrentas da cúpula da igreja católica.


E eis que em Março de 2009,no ocidente,que supostamente teria se livrado de toda essa batelada de pavores e práticas rançosas,o sr Dom José Cardoso Sobrinho,arcebispo de Olinda e Recife vem a público excomungar uma equipe médica que praticou o aborto numa menina de nove anos,seguidamente abusada pelo padrasto.É um insulto às leis mais elementares do bom senso e dos que se dizem cristãos,afirmar como o arcebispo que "pior que o estupro,é o aborto".Desprezo grosseiro pelo sofrimento psicológico(e físico)dessa criança,que aos nove anos teve que passar por esse calvário de abuso sexual,gravidez e aborto.Desprezo pelo bom senso da humanidade,desprezo pela mãe da garota,que sua reverendíssima também excomungou.Qual era a proposta da igreja?Que ela levasse a frente essa gravidez,com riscos gravíssimos a sua própria vida,com um enorme aumento de sofrimento psicológico?


Devemos reagir,não permitir que essas pessoas coloquem uma venda em nossos olhos.Eles não são(nem nunca foram)os donos da verdade.A morte de Giordano Bruno e de milhares de outras pessoas,das "bruxas",pelos séculos afora ,devem nos dar um elemento maior de reflexão.São esses os valores de uma sociedade sã,de pessoas que trabalham,amam e tentam ser a cada dia melhores?

PAUL VERLAINE(1844-1896)-CHANSON D'AUTOMNE-CANÇÃO DE OUTONO(1866).


Les sanglots longs

Des violons

De l'automne

Blessent mon coeur

D'une langueur

Monotone.


Tout suffocant

Et blême,quand

Sonne l'heure,

Je me souviens

Des jours anciens

Et je pleure.


Et je m'en vais

Au vent mauvais

Qui m'emporte

Deçà,delà

Pareil à la

Feuille morte.



Os soluços graves

Dos violinos suaves

Do outono

Ferem a minh'alma

Num langor de calma

E sono.


Sufocado,em ânsia,

Ai!quando à distância

Soa a hora,

Meu peito magoado

Relembra o passado

E chora.


Daqui,dali,pelo

Vento em atropelo

Seguido,

Vou de porta em porta,

Como a folha morta,

Batido...


(Tradução de Alphonsus de Guimaraens-1870-1921)


Cheguei.Chegaste.Vinhas fatigada

E triste,e triste e fatigado eu vinha.

Tinhas a alma de sonhos povoada,

E a alma de sonhos povoada eu tinha...


E paramos de súbito na estrada

Da vida:longos anos,presa à minha

A tua mão,a vista deslumbrada

Tive da luz que teu olhar continha.


Hoje,segues de novo...Na partida

Nem o pranto os teus olhos umedece,

Nem te comove a dor da despedida.


E eu,solitário,volto a face,e tremo,

Vendo o teu vulto que desaparece

Na extrema curva do caminho extremo.
Observação:-A poesia parnasiana,especialmente a de Olavo Bilac,tem sido objeto de um massacre
da crítica que já dura décadas.Uma pretensa crítica "pós-moderna',que se arrega o direito de interpretar todo o fenômeno literário em termos político-econômicos,sendo que o estético aparece muitas vezes como mero "aspecto alienante-alienado".Eu,por mim,sou um fervoroso devoto do credo estético.Acredito ser uma falácia o fato de não interpretarmos o mundo segundo critérios estéticos.E recuso terminantemente qualquer rótulo de "alienado".Quem sou eu,mas acredito que um Rimbaud,uma Virginia Woolf,um Proust,Joyce,Sebald,Borges,et alii(isso para falar dos maiores) interpretavam o mundo segundo um critério de BELEZA.A política é obviamente importante na vida de qualquer pessoa,mas ao meu ver, política+arte não têm nada em comum.Semprei achei estranho o suposto discurso "pós-moderno" do fim das narrativas,etc.Basta dar uma olhada no noticíario para ver que novas e terríveis narrativas estão surgindo.E acredito que a nossa aventura nesse planeta está,de certa forma, começando (de novo).E quantos recantos da Terra ainda nem conhecem uma mera modernidade?O ocidente deve se lembrar da mais simplória noção de processo histórico-vejam a China,a India e o Brasil(porque não?).Mas voltando ao parnasianismo,é preciso reivindicar a beleza e a modernidade mesma desse movimento,como tantos outros,engolidos pelo lamentável politicamente correto.