O RIO ANTIGO


A bela e sombria gravura de Goya-el sueño de la rázon produce monstros,parece ilustrar muito bem nosso tempo-o tempo do presente infinito,do ser humano reduzido a homo-economicus,da tecno-bio-sociedade da informação,da espetacularização ad nauseam de todos os acontecimentos,do desprezo pela cultura,da especialização.Mas também das inumeráveis resistências a esse modelo,das quais a blogosfera é um grande exemplo.Resistir a essa "razão" cínica e perniciosa é preciso,assim como é preciso procurar outros modelos de (re)construção do mundo social,de harmonização da relação homem-natureza,para impedir a destruição final do planeta.É chegado o tempo que uma outra razão acorde de seu sono.


Ora,a alegria,este pavão vermelho,

está morando em meu quintal agora.

Vem pousar como um sol em meu joelho

quando é estridente em meu quintal a aurora.


Clarim de lacre,esse pavão vermelho

sobrepuja os pavões que estão lá fora.

É uma festa de púrpura.E o assemelho

a uma chama do lábaro da aurora.


É o próprio doge a se mirar no espelho.

E a cor vermelha chega a ser sonora

neste pavão pomposo e de chavelho.


Pavõs lilás possuí outrora.

Depois que amei este pavão vermelho,

os meus outros pavões foram-se embora.

LEGIÃO URBANA-MONTE CASTELO

MONTE CASTELO-RENATO RUSSO ,COM RECORTES DA CARTA DE SÃO PAULO AOS CORÍNTIOS E DE CAMÕES.

Ainda que eu falasse

A língua dos homens

E falasse a língua dos anjos

Sem amor eu nada seria...

É só o amor,é só o amor

Que conhece o que é verdade

O amor é bom,não quer o mal

Não sente inveja

Ou se envaidece...

O amor é o fogo

Que arde sem se ver

É ferida que dói

E não se sente

É um contentamento

Descontente

É dor que desatina sem doer...

Ainda que eu falasse

A língua dos homens

E falasse a língua dos anjos

Sem amor eu nada seria...

É um não querer

Mais que bem querer

É solitário andar

Por entre a gente

É um não contentar-se

De contente

É cuidar que se ganha

Em se perder...

É um estar-se preso

Por vontade

É servir a quem vence

O vencedor

É um ter com quem nos mata

A lealdade

Tão contrário a si

É o mesmo amor...

Estou acordado

E todos dormem,todos dormem

Todos dormem

Agora vejo em parte

Mas então veremos face a face

É só o amor,é só o amor

Que conhece o que é verdade...

Ainda que eu falasse

A língua dos homens

E falasse a língua dos anjos

Sem amor eu nada seria...

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE-"MEMÓRIA'

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

LIMITE(1931)-DE MARIO PEIXOTO.TRECHO INICIAL:


Vejo-te em seda e nácar,
e tão de orvalho trêmula,que penso ver,efêmera,
toda a Beleza em lágrimas,

por ser bela e ser frágil.


Meus olhos te ofereço:

espelho para a face

que terás no meu verso,

quando,depois que passes,

jamais ninguém te esqueça.


Então de seda e nácar,

toda de orvalho trêmula,serás eterna.E efêmero

o rosto meu,nas lágrimas

do teu orvalho...E frágil.

CARPE DIEM-MÁRIO FAUSTINO(1930-1962)


Qe faço deste dia,que me adora?

Pegá-lo pela cauda,antes da hora

Vermelha de furtar-se ao meu festim?

Ou colocá-lo em música,em palavra,

Ou gravá-lo na pedra,que o sol lavra?

Força é guardá-lo em mim,que um dia assim

Tremenda noite deixa se ela ao leito

Da noite precedente o leva,feito

Escravo dessa fêmea a quem fugira

Por mim,por minha voz e minha lira


(Mas já de sombras vejo que se cobre

Tão surdo ao sonho de ficar-tão nobre.

Já nele a luz da lua-a morte-mora,

De traição foi feito:vai-se embora.)