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Poesia-Os Véus(de Alexei Bueno)

                  Muitos te olharão
                      Mas não verão nada.
                      Tua alma é vedada
                      Ao que as outras são.

                      Nunca a supuseram
                      Nem a imaginaram
                      As que te tiraram
                      Do que elas não eram.

                      Nunca a compreenderam
                      Os mais juntos dela,
                      Murada é a janela
                      Onde se estenderam.

                      Dela ninguém toma,
                      Nela ninguém nada,
                      Fonte envenenada,
                      Mar que não se doma.

                      Píncaro alto e nu,
                      Solitária estrada
                      Onde à luz toldada
                      Só passeias tu.

BUENO, Alexei. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: 2003. p.244-245.

Alexei Bueno(1963) é na minha opinião,o maior dos nossos poetas vivos,sem exagero.Ainda e espantosamente desconhecido,faz uma poesia que se aproxima do sublime,'reciclando' nossa herança clássica,e dando à modernidade poética uma nova voz.Fantástico.

Vidência-de Alexei Bueno.

Se os nossos olhos te enxergassem,rosa,

E não só:"É uma rosa"nos dissessem

Na vulgar gradação que nunca esquecem,

Que epifania na manhã tediosa!


Se eles vissem ao vê-la,cada coisa

E não seu nome,se afinal pudessem

Fugir da furna abstrata onde destecem

A vida,um morto partiria a lousa


Maçiça de aqui estar.Flor,nuvem,muro,

Árvore,que é uma só e não tal nome,

Se tudo entrasse o corredor escuro


Que há em nós,algo de exato se ergueria

Algo que pára o tempo e o consome,

Que alveja a noite e entenebrece o dia.


(de "Em Sonho")

ALEXEI BUENO II-(O SOBERBO POETA CARIOCA ALEXEI BUENO)


VIDÊNCIA

Se os nossos olhos te enxergassem, rosa,
E não só: “É uma rosa” nos dissessem
Na vulgar gradação que nunca esquecem,
Que epifania na manhã tediosa!

Se eles vissem, ao vê-la, cada coisa
E não seu nome, se afinal pudessem
Fugir da furna abstrata onde destecem
A vida, um morto partiria a lousa

Maciça de aqui estar. Flor, nuvem, muro,
Árvore, que é uma só e não tal nome,
Se tudo entrasse o corredor escuro

Que há em nós, algo de exato se ergueria,
Algo que pára o tempo ou que o consome,
Que alveja a noite e entenebrece o dia.


HELENA

No cômodo onde Menelau vivera
Bateram. Nada. Helena estava morta.
A última aia a entrar fechou a porta,
Levavam linho, ungüento, âmbar e cera.

Noventa e sete anos. Suas pernas
Eram dois secos galhos recurvados.
Seus seios até o umbigo desdobrados
Cobriam-lhe três hérnias bem externas.

Na boca sem um dente os lábios frouxos
Murchavam, ralo pêlo lhe cobria
O sexo que de perto parecia
Um pergaminho antigo de tons roxos.

Maquiaram-lhe as pálpebras vincadas,
Compuseram seus ossos quebradiços,
Deram-lhe à boca uns rubores postiços,
Envolveram-na em faixas perfumadas.

Então chamas onívoras tragaram
A carne que cindiu tantas vontades.
Quando sua sombra idosa entrou no Hades
As sombras dos heróis todas choraram.

De Lucernário (1993)