"From the contagion of the world's slows stain
He is secure,and now can never mourn
A heart grown cold,a head grown grey in vain"
(Shelley-Adonais-XI)
Aqui,o grande Percy Shelley(1792-1822) fala do maior poeta inglês do século XIX,John Keats(1795-1821).Quando Keats morreu de tuberculose aos 26 anos,pobre e amargurado em Roma(nada de novo no mundo,infelizmente),Shelley escreveu a elegia Adonais em homenagem a ele,a quem amava e admirava.
Esses versos sempre me obsecaram por sua beleza e pelo uso preciso das palavras,o modo impressionante de falar da maturidade.Tentei traduzir,fiz vários esboços,mas cheguei à conclusão que não dá.Está além das palavras.Um dos grandes versos da poesia romântica inglesa do século XIX.Em poucas palavras,um retrato amargo da perda dos ideais da juventude.
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Se os nossos olhos te enxergassem,rosa,
E não só:"É uma rosa"nos dissessem
Na vulgar gradação que nunca esquecem,
Que epifania na manhã tediosa!
Se eles vissem ao vê-la,cada coisa
E não seu nome,se afinal pudessem
Fugir da furna abstrata onde destecem
A vida,um morto partiria a lousa
Maçiça de aqui estar.Flor,nuvem,muro,
Árvore,que é uma só e não tal nome,
Se tudo entrasse o corredor escuro
Que há em nós,algo de exato se ergueria
Algo que pára o tempo e o consome,
Que alveja a noite e entenebrece o dia.
(de "Em Sonho")
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ANACTORIA(FRAGMENTO) DE ALGERNON CHARLES SWINBURNE(1837-1909)
Postado por
Unknown
às
domingo, março 15, 2009
A minha vida tornou-se amarga com o teu amor;os teus olhos
Cegam-me,as tuas tranças queimam-me,os teus suspiros profundos
Dividem a minha carne e o meu espírito com um débil som,
E o meu sangue fortalece-se,e as minhas veias transbordam.
Peço-te que não suspires,não fales,não respires;
Deixa que a vida se reduza a cinzas e sonha que não é a morte.
Queria que o mar nos tivesse escondido,o fogo
(Terás tu medo disso e não receias o meu desejo?)
Quebrou os ossos que branqueiam,a carne que se fende,
E deixa que as nossas cinzas joeiradas caiam como folhas.
Sinto o teu sangue contra o meu;a minha dor
Atormenta-te,e os lábios esmagam os lábios,a veia dilacera a veia.
Que o fruto seja esmagado sobre o fruto,e a flor sobre a flor,
Que o seio desperte o seio e ambos ardam uma hora.
Porque hás tu de seguir um amor sem importância?É o teu
Demasiado fraco para sustentar estas minhas mãos e estes meus lábios?
Exorto-te a que apenas por mim,ó tão amada,
Esmagues o amor com teus belos pés cheios de crueldade,
Exorto-te a que afastes teus lábios dos dela ou dos lábios dele,
Tão doces,até que eles sejam mais doces que o meu beijo:
Para que assim eu não atraia,uma andorinha em vez de uma pomba,
Erotion ou Erinna para o meu amor.
Quem dera que o meu amor te matasse;fico saciado
vendo os vivos e de bom grado te queria morta.
Quem me dera a terra tivesse o teu corpo como fruto para comer,
E que nenhuma boca a nãos ser a de uma serpente te achasse doce.
Quem me dera encontrar maneiras cruéis de mandar matar,
Instrumentos violentos e um excessivo fluxo de dor;
Atormentar-te com agonias amorosas e ameaçar
A vida nos teus lábios e deixa-la aí para doer;
Retirar-te a alma com agonias demasiado suaves para matar,
Interlúdios intoleráveis e infinito mal;
Provocar reincidências e relutância do alento,
Melodias mudas e trêmulos murmúrios da morte.
Estou cansado de todas as tuas palavras e da tua estranha afabilidade,
De todas as noites escaldantes de amor e de todos os seus dias,
E de todos os beijos interrompidos,salgados como espuma,
Que lábios trêmulos tornam úmidos com um vinho mais leve,
E olhos mais azuis por todas aquelas horas escondidas
Que o prazer enche de lágrimas e alimenta de flores,
Cruel fogo no coração que principia a penetra-lo,
Mas deixando uma brancura de flor manchada à volta de azul;
A pálpebra inferior ardente,e a superior
Erguida com um sorriso ou confundida com o amor;
(Tradução de Maria de Lourdes Guimarães)
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim
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Traço,sozinho,no meu cubículo de engenheiro,o plano,
Formo o projeto,aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.
Ao lado,acompanhamento banalmente sinistro,
O ti-tac estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!
Outrora ,quando fui outro,eram castelos e cavalarias
(ilustrações,talvez,de qualquer livro de infância),
Outrora,quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte,explícitas de neve,
Eram grandes palmares do sul,opulentos de verdes.
Outrora...
Ao lado,aompanhamento banalmente sinistro,
O tic-tac estalado das máquinas de escrever,
Temos todos duas vidas:
A verdadeira,que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando,adultos,num substrato de névoa;
A falsa,que é a que vivemos em convivência com outros;
Que é a prática,a útil
Aquela em que acabam por nos meter num caixão
Na outra não há caixões nem mortes.
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos,para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos,que é o que viver quer dizer.
Neste momento,pela náusea,vivo só na outra...
Mas ao lado,acompanhamento banalmente sinistro,
Se,desmeditando,escuto,
Ergue a voz o tic-tac estalado das máquinas de escrever.
Inconstância
Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!
Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...
E este amor que assim me vai fugindo
ă igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também... nem eu sei quando...
Florbela Espanca
Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!
Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...
E este amor que assim me vai fugindo
ă igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também... nem eu sei quando...
Florbela Espanca
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Eu me pergunto
porque o olhar de Marta
arde como candeia
numa igreja antiga
Não sei mais como gritar
ai,vou consultar cartomante
e quiromante,ler tarô.
Você me devastou,me deixou
esquálido,quadro de São Luis Gonzaga.
A peste ronda e eu grito:não me humilhe
porque preciso te ver com os olhos bem abertos
Marta canta"o amor pregou cravos
no meu coração".
È que ela não conhece as mil luzes
ardendo na noite louca
E assim eu choro,e o tempo passa,
e me joga no chão.
E eu vejo
chaminés da Inglaterra,telhados de Paris.
geleiras do Alaska,boates de Amsterdam,
ruas escuras no mundo,
tempo de dor no planeta.
Ah lótus!
Vênus das pinacotecas
Vou cantarcomo Marta antigamente
"ah esse amor vai me perder"
O que me salva
é digerir a diferença.
Ergo minhas estátuas
longe de seus abraços
enquanto passeio nu pelo pátio
que cobre a nossa distância
de peixes cegos na água escura.
Mas nada é novo,
me espalho pela sua casa
como se fosse um seu irmão
e você que tem escrúpulos
não sabe que o que tolda
a razão,é estar tão escondido
nessa caixa dourada.
(james penido)
Marcadores: poesia
A memória da paixão
é um peixe na água turva de um poço
Pêssegos numa cesta
transfiguram sua luz de intocados,
dores espreitam
na porta aberta do desejo
As águas que encontram águas
apanhando os sinais
do escuro e da transparência;
pouco a pouco se fazem em imensidão,
terrores,ausência de peso,de sentido
Pedras rolando no fundo
a espuma do leito escuro,
uma calma medrosa.
Nuvens abrem o sol.Luz.
(james Penido)
Marcadores: poesia
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