Right Now-Van Halen







Don't wanna wait 'til tomorrow
Why put it off another day?
One by one, little problems
Build up, and stand in our way. Oh

One step ahead, one step behind it
Now ya gotta run to get even
Make future plans I'll dream about yesterday, hey!
Come on turn, turn this thing around

(Right now) Hey! It's your tomorrow
(Right now) Come on, it's everything
(Right now) Catch your magic moment
Do it right here and now
It means everything

Miss a beat, you lose a rhythm
An nothin' falls into place. No!
Only missed by a fraction
Slipped a little off your pace. Oh!

The more things you get, the more you want
Just trade in one for another
Workin' so hard to make it easy
Whoa, got to turn. Come on, turn this thing around

(Right now) Hey, it's your tomorrow
(Right now) Come on, it's everything
(Right now) catch that magic moment
Do it right here and now
It means everything

Said a lie to me
Right now
What are ya waitin' for? Oh! Yeah!
Right now

(Guitar Solo)

(Right now) Hey! It's your tomorrow
(Right now) Come on, it's everything
(Right now) Catch that magic moment
And do it right, right now (Right now)
Oh, right now!

It's what's happening
Right here and now
Right now, it's right now
Oh!
Tell me, what are ya waitin' for?
Turn this thing around

Um clássico absoluto,que resiste aos anos.Original e mais que nunca atualíssimo em nossa triste época do mercado total e da coisificação do ser humano,"Right Now' se destaca hoje pela bela letra,pelos arranjos e pela mensagem,dando sua visão do mundo contemporâneo e do que nos resta-lutar e ter esperança sempre.

Para ler-"A Obra em Negro" de Marguerite Yourcenar(1968)


Todos nós temos a visão de um certo paraíso perdido ideal:a infância ou a adolescência,um dia qualquer de felicidade intensa,perdido no tempo;um relacionamento,um lugar,ou até mesmo um livro,uma obra de arte.A história da humanidade nomeia certos períodos como "idades de ouro",tempos de mudanças de paradigma,épocas ideais em que supostamente um certo senso comum teria sido sobrepujado,e assim,teríamos atingido um novo patamar ou recuperado idéias e construções mentais há muito perdidas.



O século XVI é certamente uma época conhecida pelo retorno à antiguidade greco-latina,que há muito mofava nas bibliotecas dos mosteiros da Europa ou jazia dilapidada nos templos e edifícios públicos remanescentes,sendo conhecida por uma ínfima minoria de estudiosos.Era impressionante que no século XIV,o grego que durante centenas de anos fora a língua franca do Império Romano,fosse conhecido talvez por algumas centenas de pessoas.O que causou a mudança radical foi a intensificação do comércio,especialmente no norte da Itália e na região da Flandres(hoje Bélgica e Holanda),o que gerou uma prosperidade e um bem estar que haviam desaparecido do ocidente há mil anos.
A partir da metade do século XV,nas pequenas cidade-estado italianas(Florença,Milão,Nápoles,Ferrara,Mântua,Veneza,Pádua,Gênova,Turim),começou o movimento hoje conhecido como "Renascimento"(Rinàscita).A quantidade de gênios da pintura,da escultura,da arquitetura,do desenho,da gravura,da engenharia,da tradução(entre tantas outras áreas),parece ser mesmo sem precedentes na história da humanidade:Desde aqueles considerados os primeiros humanistas -Francesco Petrarca e Giovanni Bocaccio até Fra Angelico,Cimabue,Giotto,Pinturicchio,Della Robbia,Aretino,Andrea del Sarto,Masaccio,Boticelli,chegando aos grandes Leonardo da Vinci,Michelangelo,Rafael e Tintoretto,a renascença deu ao mundo uma nova e real perspectiva.
Porém,em uma contradição que parece ser peculiar à nossa espécie,as magníficas conquistas do renascimento ocorreram paralelas a um dos séculos mais sangrentos a registrar,em que mudanças radicais balançaram o equilíbrio de uma sociedade autoritária e hiper-hierarquizada.O surgimento do protestantismo causou a ruptura da unidade da cristandade européia.levando não só a antagonismos na esfera religiosa,mas também na política e social.As guerras de religião,a repressão dos movimentos sociais,as perseguições da inquisição aos dissidentes-contestadores do catolicismo oficial,ensanguentaram a Europa nesse século de contrastes gritantes.Por volta de 1550,a expectativa de vida média era de 32 anos,definida principalmente pela guerra constante,a altíssima mortalidade infantil e as pandemias frequentes(devido á precariedade da higiene e da habitação),para as quais não existia nem profilaxia nem medicamentos.
É usando esse pano de fundo que a grande escritora francesa Marguerite Yourcenar(1903-1987) escreveu "A Obra em Negro"(1968).Seu herói é um anti-herói,Zênon Ligre,aquele que discorda,que estuda o que pode compulsivamente,e principalmente, o que contesta as supostas "verdades"sociais.Nascendo bastardo(filho de uma adolescente e de um padre italiano)em uma rica família de banqueiros da cidade flamenga de Bruges,desde muito cedo conhece o desprezo e os entrelaçamentos falsos e pegajosos da moral burguesa,que vive "eternamente dentro de sua própria peça teatral".Destinado(como então os bastardos das famílias ricas)ao sacerdócio,decide procurar seu próprio caminho e tentar apreender algum sentido naquele mundo mesquinho e mergulhado nas mais grosseiras superstições.Estuda a precária medicina da época ,assim como a filosofia,e descobre que se quiser sobreviver às fogueiras da inquisição deve se esconder,tornar-se como que um outro.Esse romance essencial está repleto de sangue e vida,e é uma ode ao espírito humano que tenta se situar em meio ao caos político e social,que tenta erguer a cabeça entre os escombros de um mundo em constante transformação.Zênon passa pela vida como mais um,aos olhos da multidão desatenta,mas acumula para si a vivência profunda da vida como fim em si,não meramente como simples existência biológica,como um simplesmente "estar aqui"sem tentar levantar nem uma mínima fímbria da cortina que nos cerca.
Lançado no ano emblemático de 1968,"A Obra em Negro"foi saudado como uma obra prima pela crítica francesa,e Marguerite Yourcenar recebeu(pela segunda vez)um dos mais importantes prêmios literários franceses,o Femina.Ao nos desenrolar um outro século XVI,longe das belezas da renascença,e mais próximo ao sofrimento real de um ser humano deslocado em uma época dura da humanidade,a escritora faz também uma analogia com nosso tempo,aparentemente"ordenado",mas devorado pelas bordas pelo desrespeito ao outro,a destruição da natureza(em escala jamais vista),o mais absurdo consumismo e pela cada vez mais onipresente presença de um bio-poder difuso e que se fortalece.Infelizmente tudo muito parecido com o século XVI onde Zênon padece da angústia de quase nada poder fazer,enquanto se debate em meio à piedade por seus semelhantes.Uma obra que consumiu vinte anos de escrita e que ao final,nos dá mais um alento,mais uma esperança que a vida cale a pena se for objeto de transformação externa e interna.

Invenção-Haroldo de Campos(1929-2003)

          se
                                           nasce
                                           morre   nasce
                                           morre   nasce    morre
                                                                               renasce   remorre   renasce
                                                                                                remorre   renasce
                                                                                                                  remorre
                                                                                                                              re
                                                                   re
                                                      desnasce
                                  desmorre   desnasce
              desmorre   desnasce   desmorre
                                                                           nascemorrenasce
                                                                           morrenasce
                                                                           morre
                                                                           se

A África,a miséria e a hipocrisia do Ocidente

O garoto que está estirado numa esteira,em um desses apocalípticos campos de refugiados do Sudão,há um bom tempo já quase não se move.A mãe,esquelética,apática,está deitada a seu lado,os olhos enormes e vazios,os seios murchos.Na vila-favela-acampamento,uma multidão circula.Há cabanas de pau-a-pique,choças de palha,mas a maioria se estende pelo chão mesmo,num burburinho indistinto,em meio ao calor e aos insetos.Inacreditáveis(por deixarem o conforto da "boa " Europa) profissionais dos "Médicos sem Fronteiras"circulam em meio às pessoas,olhando um e outro,fazendo o que podem em meio ao caos.È isso mesmo,a velha palavra:o horror,à la Joseph Conrad via Apocalipse now até o REAL.
De repente,um ronco de motor.Um avião da cruz vermelha sobrevoa o acampamento.O menino e a mãe viram-se na direção do ruído que deve retumbar em seus ouvidos.A enorme cruz de um vermelho berrante pintada no bojo da aeronave significa uma coisa só :possibilidade de comer,e infundir um mínimo de força em corpos exaustos,inanimados,em mentes estáticas e olhos que já viram o inimaginável.Paraquedas soltam caixas de leite em pó,biscoitos,latas de sardinha:presentinhos do ocidente apiedado e nauseado.
Na idade média,o imaginário ocidental era repleto do horror da vinda do "anticristo",para a formação do "império do mal".As constantes epidemias de peste,a fome crônica,a opressão constante e sistemática dos"poderosos",em nada diferem do que grande parte da Africa têm como cotidiano, diante do desinteresse,da apatia da Europa,que hoje,imersa na inércia do consumismo e do mercado total(que parece estar agora desmoronando),simplesmente se atem à rétorica estéril e meia dúzia de passeatas de bem intencionados.
Até o fim do século 18,a miséria e a opressão política e religiosa deram o tom na Europa.As cenas goyescas de um desses manuscritos medievais sobre a peste e a fome são assim:filmes modernos.Um parágrafo qualquer do New York Times ou do Le Monde ,documentários escandalizados de estudantes de Oxford,teses de doutoramento da Sorbonne,tours de celebridades a campos de refugiados,enquanto tiram fotos ,afagam bebês,e correm para tomar o avião de volta.Oh my God!É,o inferno pode ser mesmo aqui.Todos os dias lemos reportagens sobre a miséria da África,horrorizados assistimos ao desfilar dos quase-mortos no jornal da noite.Mas dentro de qual filme essas pessoas realmente se situam?O garoto continua deitado na esteira.E a câmera,em rápidos volteios,mostra as caixas de leite em pó,a lama desses absurdos campos.
Estamos cansados de saber de tudo isso.O ocidente precisa abandonar a retórica,a ganância obscena em que está atolado.Bondade e espiritualidade nada têm a ver com acreditar ou não em Deus.É preciso aproveitar esse momento caótico (que acho,mal começamos a viver),para mudar o rumo da nossa espécie,como seres em si,pensar em que queremos realmente nos transformar no futuro.

Amizade-(a todos os meus amigos da blogosfera)

Poema visual de Constança Lucas
Imagem daqui

Selo-"Esse Blog Mexe Com Meus sentidos"

Recebi do Valdeir do blog ponderantes ,o selo "Esse Blog Mexe Com Meus Sentidos".
Regulamento:
1)-Indicar os 10 blogs que mexem com seus sentidos;
2)-Dizer 5 coisas que mexem com seus sentidos nesse momento;
3)-Linkar quem te deu o selo e exibir no blog.
Meus indicados são:
2)-Mauri da A Katana de Bambu
3)-Marcelo do Abrazar la Vida
4)-Luciano do Gule Anda
5)-Cristiano do Braços Abertos
6)-Vanessa do Fio de Ariadne
8)-Ariane do Mariposando
9)-Paulo Veras do Paulo Veras
10)-Elaine do Professora Elaine
5 coisas que mexem com meus sentidos nesse momento:
1)-Maysa cantando
2)-O calor que faz hoje(detesto calor)
3)-A cara de felicidade da minha cachorra dormindo(estará sonhando?)
4)-?
5)-?
Agradeço ao Valdeir pela lembrança.Valeu,meu amigo!




Para ver-"Elefante" de Gus Van Sant (2003)

Em Abril de 1999,o mundo assistia ao massacre da Escola Columbine(subúrbio de Denver,Colorado).Dois estudantes,Eric Harris(18 anos) e Dylan Klebold(17),entraram armados na escola e assasinaram a sangue frio 15 alunos,ferindo outros 28,suicidando-se em seguida.Em mais uma tragédia anunciada,o massacre de Columbine colocou mais uma vez em evidência o polêmico tópico do controle de armas nos Estados Unidos,onde se pode comprar armas pesadas até pelo correio.Mas,além de toda a controvérsia sobre porte de armas,o caso Columbine indiretamente toca num ponto sensível da sociedade americana:a divisão social entre duas(hipotéticas e incompreensíveis)"castas"-"losers" e "winners".Hipotéticas porque carecem de qualquer explicação racional,incompreensíveis porque totalmente fora do contexto real da sociedade(mesmo em uma sociedade tão obsecada por dinheiro e sucesso como a americana).Os estereótipos mais cruéis de opressão social,como aquela velha história de nerds e atletas(os populares e o "resto"),acreditem,não existem só na sessão da tarde.Qualquer um que conheça ou tenha vivido nos EUA por algum tempo,sabem que essa polarização é real,e que também,o sofrimento desses"humilhados e ofendidos"é imenso.A sociedade americana(e a ocidental em geral),em que mais e mais o biopoder lança seus tentáculos,é também uma sociedade em que certos modelos são consagrados como ideais(o corpo ideal,o rosto ideal,o peso ideal,o comportamento sexual ideal,a inteligência ideal,etc) e os que não se enquadram,imediatamente descartados e condenados ao inferno do desprezo e da humilhação constantes.Os inúmeros massacres em escolas,são sempre perpetrados por aqueles considerados "losers",adolescentes(na maioria homens)com um histórico de "bullying",de desprezo e desconsideração constantes.Longe de se dizer que essas humilhações justificam um comportamento assassino,precisamos também tentar entrar na mente e no coração desses adolescentes humilhados,que veem no assassinato em massa ,uma hipotética vingança contra seus algozes.
Gus Van Sant(1952),é um diretor americano que longe das platitudes da maioria de seus compatriotas,encara seu país com olhos sempre(muito)críticos.Em sua obra prima-"Elefante"(2003),Van Sant,parte da tragédia de Columbine para fazer sua leitura da apatia e principalmente ,do absurdo conformismo social americano("conformismo bovino" na conhecida observação de Simone de Beauvoir).Palma de Ouro no Festival de Cannes(assim como melhor diretor),Elefante faz uma leitura não-linear de um dia aparentemente comum numa escola secundária ,claramente inspirada em Columbine.O cotidiano estudantil reflete a sociedade,e claro,há os que sempre perdem e aqueles que aparentemente são só caixa de ressonância dos preconceitos mais absurdos e incompreensíveis.O trabalho de Gus Van Sant está longe do realismo do cinema americano convencional.Em Elefante,há,por exemplo,vários versões de um mesmo fato,em que,em subtraindo uma certa verossimilhança realista,o filme ganha em dimensão psicológica.Os sintomas sociais estão todos lá:o desprezo pelo diferente,o conformismo mais grosseiro ao senso comum,e o que é mais assinalado por Van Sant,o erro de ver nessas perversões sociais a suposta normalidade das coisas.Todas as frustrações de nosso sistema social contemporâneo(e suas nefastas consequências psicológicas)são dissecadas nesse filme exemplar.Não espere uma narração convencional;Van Sant analisa a neurose de um país que ainda se pensa eleito,diferente de todos os outros;e é impiedoso ao dar seu diagnóstico:a sociedade americana (e o ocidente) está doente.Um filme desafiador,corajoso,inteligente,que não se perde em nenhum momento,que aponta e aperta a ferida do narcissismo exacerbado e doentio de nossa época.

"Bedtime Story"(Madonna)


Today is the last day that I'm using words
They've gone out, lost their meaning
Don't function anymore

Let's, let's, let's get unconscious honey
Let's get unconscious honey

Today is the last day that I'm using words
They've gone out, lost their meaning
Don't function anymore

Traveling, leaving logic and reason
Traveling, to the arms of unconsciousness
Traveling, leaving logic and reason
Traveling, to the arms of unconsciousness

Chorus:

Let's get unconscious honey
Let's get unconscious
Let's get unconscious honey
Let's get unconscious

Words are useless, especically sentences
They don't stand for anything
How could they explain how I feel

Traveling, traveling, I'm traveling
Traveling, traveling, leaving logic and reason
Traveling, traveling, I'm gonna relax
Traveling, traveling, in the arms of unconsciousness

(chorus)

And inside we're all still wet
Longing and yearning
How can I explain how I feel?

(chorus)

Traveling, traveling (repeat twice)
Traveling, traveling, in the arms of unconsciousness

And all that you've ever learned
Try to forget
I'll never explain again

Sem dúvida,um dos melhores video-clips de todos os tempos,que custou(em 1993),US$5 milhões.Uma viagem psicodélica,um sonho(uma experiência médica?),com claras referências psicanalíticas e à pintura holandesa(Vermeer e Rembrandt).As cenas com a dança dos dervixes(super-estilizados),e a moderna medusa estão muito perto da antiga Beleza(com B maiúsculo).Prova que por mais que Madonna tenha seus detratores(que são muitos),ela está aqui para também produzir uma obra de alta qualidade,muito longe da atual baba dominante.

Romance- de Mário Faustino(1930-1962)




ROMANCE

Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhando já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena
Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.
(imagem daqui)

Para ler-"Onde Andará Dulce Veiga"-de Caio Fernando Abreu


Há escritores que cumprem um destino ideal de escritor.Além do estereótipo do rato de biblioteca sempre mergulhado em livros ou do artesão da palavra burilando à exaustão sua obra,existem aqueles que vivem o ideal do escritor como paixão,como razão de viver:que levam às últimas consequências uma decisão intelectual de unir vida e obra.Na história da literatura universal são vários os que escolheram a escrita como farol de vida e que a misturaram de tal forma com essa própria vida que seria impossível separar tal escritor desse fluxo constante que é gerado pela vivência da literatura como destino.Balzac,Dickens,Victor Hugo,Joyce,Virginia Woolf,e possivelmente acima de todos o grande e inimitável Jorge Luis Borges,passaram com tal intensidade,com tal brilho corruscante pela literatura e pela alta cultura,que seria impossível não defini-los como mestres supremos de seu ofício,ofício esse conectado indissoluvelmente à vida em si mesma.
Em nossa época conectada em tempo real,uma impossibilidade surge no horizonte:a impossibilidade da alta cultura ,da alta literatura ser vista como uma possível salvação pessoal.Muitos de nós talvez se perguntem :- essa possível salvação terá existido em alguma época da humanidade?Um Balzac atormentado com o destino de suas personagens ,um Charles Dickens deprimido por ter de 'matar' uma personagem ou uma Virginia Woolf vivendo vida literária /vida real em uma amálgama ,parecem expectros de um tempo distante.Mas creio que em nosso tempo,escritores continuam buscando explicar o mundo interior,independentemente de quaisquer eventos históricos externos.
Na Literatura Brasileira,entre os vários escritores que fizeram de seu ofício sua razão de viver,gostaria de citar a sempre presente Clarice Lispector,de quem Guimarães Rosa uma vez disse'que a lia não para a literatura,mas para a vida';e o poucas vezes citado (e quase nunca como merece),Caio Fernando Abreu .
Entre os muitos escritores que se formaram nos anos 60,Caio aparece como um imbatível corisco de luz,um desses escritores para quem a literatura era antes de qualquer coisa,uma missão,algo como uma idéia platônica,romântica,indissociável de sua própria vida(vide suas Cartas ).
Desde seu primeiro livro-"Inventário do (Ir)remediável (1970),fortemente influenciado por Clarice,Caio misturou com maestria a contracultura,o sonho hippie desfeito,a 'libertação'pelo livre uso do corpo,da sexualidade,o fluxo da consciência,a loucura,a amargura tantas vezes existente nas relações humanas,a solidão inerente a todos nós:aliando a esses elementos uma feroz crítica social e especialmente psicológica,da coisificação do ser humano;uma análise contundente dos mecanismos mais repressores da sociedade brasileira e ocidental.
Em sua obra destaco "Morangos Mofados"(1982),um marco dos anos 80,hoje uma obra premonitória ,que analisou o fim do sonho da contracultura,a ressaca mental dos anos 70 e o mergulho inicial no hedonismo desenfreado dos anos 80,cobertos de ponta a ponta pela sombra aterrorizante da AIDS,que pôs o ponto final e talvez definitivo,a qualquer 'sociedade alternativa'.
Seus contos "Pela Noite" e "Aqueles Dois" são dos marcos da temática gay na literatura brasileira,nadando profundamente na análise psicológica e na crítica a uma sociedade pretensamente liberal,mas ainda cheia de dispositivos repressores crueis pronto a serem acionados a qualquer mudança real de paradigma.
"Onde Andará Dulce Veiga"(1990-prêmio da Associação Paulista dos críticos de Arte),é além de uma homenagem ao 'país das cantoras',um mergulho fundo num Brasil tenso e muito vivo(o das grandes metrópoles),uma história de perdas e buscas,uma análise minuciosa da hipocrisia social brasileira,uma evocação da loucura que subliminarmente domina todo o tecido social.Dedicado 'à memória de Nara Leão,e a Odete Lara,Guilherme de Almeida Prado,Cida Moreyra e todas as cantoras do Brasil',é a história da fictícia cantora Dulce Veiga(um mistura de Elizeth,Elis e Dalva de Oliveira),que no auge da fama simplesmente desaparece sem deixar vestígios.Em uma São Paulo com ares da Los Angeles de Blade Runner,Caio nos leva numa ação crescente e frenética de pistas falsas,reviravoltas e todo tipo de situações e criaturas bizarras,até o desfecho lindíssimo e inesquecível.Obra de maturidade,Dulce Veiga é uma obra marcante ,testemunha de um Brasil muitas vezes barbáro(no pior sentido possível),mas que tantas vezes nos oferece pessoas e surpresas que mal acreditaríamos existir.Leiam e confiram.
imagem daqui