Kid abelha,Na rua,na chuva,na fazenda.BOA NOITE!

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Não passou


Passou?

Minúsculas eternidades

deglutidas por mínimos relógios

ressoam na mente cavernosa


Não,ninguém morreu,ninguém foi infeliz.

A mão-a tua mão,nossas mãos-

rugosas têm o antigo calor

de quando éramos vivos.Éramos?


Hoje somos mais vivos do que nunca.

Mentira,estarmos sós.

Nada,que eu sinta,passa realmente.

É tudo ilusão de ter passado.

(Carlos Drummond de Andrade)


Cachoeiras transbordam
ao longo das estradas
Mil marcas caminhando com os dias.
Ouço um refrão de rap baixo.

Na solidão de um ônibus
que passa roçando árvores,
com barulho de corredeira e
o dia que se esvai devagar,
Eu digo:sim.Agora sei
como tudo está difícil e cortante.
Sinceros medos são veredas
numa terra onde ninguém vai.

Uma moça fala quase sussurrando,
outra vai imóvel,flores na blusa;
tudo se sacode numa curva.
E essa claridade que tudo envolve.
Ah luz sinuosa,crepe
da China enrolado no banco de trás,
voz insinuada numa fresta de janela.
Rios se vão,separando verdes,galhos
se tocam,folhas brilhantes de espuma,
clara luz é um rosto aberto.

E vamos continuar a disputar os conceitos,
rabiscar os poemas,tirar da jaula o abutre,
parar no entretretrecho,
voz presa,pessoas sentadas
num ônibus do Brasil.

Vem chegando o escuro
mas há um pisca-pisca ondulante.
Ainda passarinhos,ainda chavões,
jargões,lugares comuns.


Entreve-se uma cachoeira,
espiral de pedra,brancura da água
ao longe.
O rádio toca uma toada recitada.
Achados e perdidos,correio sentimental.
Sinuosismos?Quero descobrir agora outros sabores.

(James Penido)