THE CORRS-EVERYBODY HURTS

Para João Paulo e Naiara ,em Dublin.


Sentia o cheiro
da chuva;
o grito dos pássaros,
a consistência dos musgos
antiqüíssimos.
Tentava entender a mecânica
das gotas ácidas
alinhadas,uma a uma,
o silêncio cinza das nuvens
onde o que restou do sol
pousava.
E o corpo sofria
feito ave sem asas:
de sede,se afogava.

MARIA CALLAS(1923-1977)-LA MAMMA MORTA,DA ÓPERA ANDREA CHÉNIER.



Há quem não não goste de Maria Callas,mas para mim,é o que Paulo Francis disse:deve ser o que Ulisses ouviu,amarrado ao mastro,quando as sereias cantaram.De uma intensidade dramática rara hoje,nesse nosso mundo do" mais ou menos".Pungente,vibra todas as cordas da alma.

Ser um pós-moderno significa ter uma ideologia,uma percepção do mundo,uma determinada hierarquia de valores que,entre outras coisas,descarta a idéia de um tipo de regulamento normativo da comunidade humana e assume que todos os tipos de vida humana se equivalem,que todas as sociedades são igualmente boas ou más;enfim,uma ideologia que se recusa a fazer julgamentos e a debater seriamente questões relativas a modos de vida viciosos ou virtuosos,pois,no limite,acredita que não há nada a ser debatido.Isso é pós-modernismo.
(Zygmunt Bauman-sociólogo inglês,nascido na Polônia)

CANÇÃO MATINAL-RUY ESPINHEIRA FILHO

a Ricardo Vieira Lima

Acorda bem cedo o homem
da casa de telha-vã
e abre janela e porta
como se abrisse a manhã.

E eis que a vida não é mais
nem triste,nem só,nem vã.
É doce:cheira a goiaba
e brilha como romã.

orvalhada.E ele caminha,
o homem,com passos de lã
para em nada perturbar
a quietude da manhã.

Já não há mágoas de perdas
nem angústias de amanhã,
pois a alma que há na calma
entre a goiaba e a romã

é a própria alma do homem
da casa de telha vã,
que declara a noite morta
e acende em si a manhã.

CAZUZA-BURGUESIA


JUSTIÇA MANDA SOLTAR ELIANA TRANCHESI.(SONEGAR MILHÕES E SER DONA DA DASLU PODE.AGORA, SE VOCÊ FOR FAVELADO(A) E ROUBAR UM POTE DE MANTEIGA NO SUPERMERCADO,PREPARE-SE PARA UM ROSÁRIO DE HORRORES,POIS NENHUM DESEMBARGADOR VAI MANDAR SOLTAR VOCÊ).SERIA CÔMICO SE NÃO FOSSE MAIS QUE TRÁGICO.ATÉ QUANDO VÃO DURAR ESSES PRIVILÉGIOS ESCANDALOSOS?

nascer
é ser novinho em folha
e já deixar cicatriz

viver
é cobrir os outros
de cicatrizes
e ser coberto

mas nem tudo
são cicatrizes

algumas incisões
definitivamente
não se fecham

por isso
aliás
morremos


POEMA -PAULO HENRIQUES BRITTO

O hábito de estar aqui agora
aos poucos substitui a compulsão
de ser o tempo todo alguém ou algo.

Um belo dia(por algum motivo
é sempre dia claro nesses casos)
você abre a janela,ou abre um pote

de pêssegos em calda,ou mesmo um livro
que nunca há de ser lido até o fim
e então a idéia irrompe,clara e nítida:

É necessário?Não.Será possível?
De modo algum.Ao menos dá prazer?
Será prazer essa exigência cega

a latejar na mente o tempo todo?
Então por quê?
E neste exato instante
você por fim entende,e refastela-se

a valer nessa poltrona,a mais cômoda
da casa,e pensa sem rancor:
Perdi o dia,mas ganhei o mundo.

(Mesmo que seja por trinta segundos)

O RIO ANTIGO


A bela e sombria gravura de Goya-el sueño de la rázon produce monstros,parece ilustrar muito bem nosso tempo-o tempo do presente infinito,do ser humano reduzido a homo-economicus,da tecno-bio-sociedade da informação,da espetacularização ad nauseam de todos os acontecimentos,do desprezo pela cultura,da especialização.Mas também das inumeráveis resistências a esse modelo,das quais a blogosfera é um grande exemplo.Resistir a essa "razão" cínica e perniciosa é preciso,assim como é preciso procurar outros modelos de (re)construção do mundo social,de harmonização da relação homem-natureza,para impedir a destruição final do planeta.É chegado o tempo que uma outra razão acorde de seu sono.


Ora,a alegria,este pavão vermelho,

está morando em meu quintal agora.

Vem pousar como um sol em meu joelho

quando é estridente em meu quintal a aurora.


Clarim de lacre,esse pavão vermelho

sobrepuja os pavões que estão lá fora.

É uma festa de púrpura.E o assemelho

a uma chama do lábaro da aurora.


É o próprio doge a se mirar no espelho.

E a cor vermelha chega a ser sonora

neste pavão pomposo e de chavelho.


Pavõs lilás possuí outrora.

Depois que amei este pavão vermelho,

os meus outros pavões foram-se embora.

LEGIÃO URBANA-MONTE CASTELO

MONTE CASTELO-RENATO RUSSO ,COM RECORTES DA CARTA DE SÃO PAULO AOS CORÍNTIOS E DE CAMÕES.

Ainda que eu falasse

A língua dos homens

E falasse a língua dos anjos

Sem amor eu nada seria...

É só o amor,é só o amor

Que conhece o que é verdade

O amor é bom,não quer o mal

Não sente inveja

Ou se envaidece...

O amor é o fogo

Que arde sem se ver

É ferida que dói

E não se sente

É um contentamento

Descontente

É dor que desatina sem doer...

Ainda que eu falasse

A língua dos homens

E falasse a língua dos anjos

Sem amor eu nada seria...

É um não querer

Mais que bem querer

É solitário andar

Por entre a gente

É um não contentar-se

De contente

É cuidar que se ganha

Em se perder...

É um estar-se preso

Por vontade

É servir a quem vence

O vencedor

É um ter com quem nos mata

A lealdade

Tão contrário a si

É o mesmo amor...

Estou acordado

E todos dormem,todos dormem

Todos dormem

Agora vejo em parte

Mas então veremos face a face

É só o amor,é só o amor

Que conhece o que é verdade...

Ainda que eu falasse

A língua dos homens

E falasse a língua dos anjos

Sem amor eu nada seria...

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE-"MEMÓRIA'

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

LIMITE(1931)-DE MARIO PEIXOTO.TRECHO INICIAL:


Vejo-te em seda e nácar,
e tão de orvalho trêmula,que penso ver,efêmera,
toda a Beleza em lágrimas,

por ser bela e ser frágil.


Meus olhos te ofereço:

espelho para a face

que terás no meu verso,

quando,depois que passes,

jamais ninguém te esqueça.


Então de seda e nácar,

toda de orvalho trêmula,serás eterna.E efêmero

o rosto meu,nas lágrimas

do teu orvalho...E frágil.

CARPE DIEM-MÁRIO FAUSTINO(1930-1962)


Qe faço deste dia,que me adora?

Pegá-lo pela cauda,antes da hora

Vermelha de furtar-se ao meu festim?

Ou colocá-lo em música,em palavra,

Ou gravá-lo na pedra,que o sol lavra?

Força é guardá-lo em mim,que um dia assim

Tremenda noite deixa se ela ao leito

Da noite precedente o leva,feito

Escravo dessa fêmea a quem fugira

Por mim,por minha voz e minha lira


(Mas já de sombras vejo que se cobre

Tão surdo ao sonho de ficar-tão nobre.

Já nele a luz da lua-a morte-mora,

De traição foi feito:vai-se embora.)





FELICIDADE CLANDESTINA




Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser. ”Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse ” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Ó mar salgado,quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso,ó mar!

Valeu a pena?Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

AMARCORD(1973),DE FEDERICO FELLINI-DANÇA NA NEBLINA.

PRÊMIO DARDOS


Como já postei antes,a professora Elaine dos Santos,do blog http://professoraelainedossantos.blogspot.com/ ,me presenteou com mais um prêmio Dardos.

Como ela mesma diz,esse selo tem a intençao de promover uma rede entre os blogueiros.O premiado deve seguir as seguintes instruções:


1)-Deve exibir a imagem do selo em seu blog.

2)-Deve linkar o blog pelo qual você recebeu indicação.

3)-Escolher outros 15 blogs a quem entregar o prêmio Dardos.

4)-Deve avisar os escolhidos.


Aqui vai minha lista:


















Obrigado a todos.






A Vanessa do http://fio-de-ariadne.blogspot.com/ ,está promovendo mais uma blogagem coletiva.Dessa vez o tema escolhido é o filme da minha vida.Particularmente achei o tema fascinante.Todos nós temos muitos filmes favoritos, e embora seja difícil escolher um para falar a respeito,acho que se pensarmos bem,encontaremos AQUELE FILME,que por uma razão ou outra realmente nos marcou e ainda nos marca.Então vá até o blog da Vanessa e leia o post.Dia 29 de abril o filme da minha vida estará aqui.


RADIOHEAD:THERE THERE-PSICODÉLICO,PSICANALÍTICO,FABULOSO.


A minha vida tornou-se amarga com o teu amor;os teus olhos

Cegam-me,as tuas tranças queimam-me,os teus suspiros profundos

Dividem a minha carne e o meu espírito com um débil som,

E o meu sangue fortalece-se,e as minhas veias transbordam.

Peço-te que não suspires,não fales,não respires;

Deixa que a vida se reduza a cinzas e sonha que não é a morte.

Queria que o mar nos tivesse escondido,o fogo

(Terás tu medo disso e não receias o meu desejo?)

Quebrou os ossos que branqueiam,a carne que se fende,

E deixa que as nossas cinzas joeiradas caiam como folhas.

Sinto o teu sangue contra o meu;a minha dor

Atormenta-te,e os lábios esmagam os lábios,a veia dilacera a veia.

Que o fruto seja esmagado sobre o fruto,e a flor sobre a flor,

Que o seio desperte o seio e ambos ardam uma hora.

Porque hás tu de seguir um amor sem importância?É o teu

Demasiado fraco para sustentar estas minhas mãos e estes meus lábios?

Exorto-te a que apenas por mim,ó tão amada,

Esmagues o amor com teus belos pés cheios de crueldade,

Exorto-te a que afastes teus lábios dos dela ou dos lábios dele,

Tão doces,até que eles sejam mais doces que o meu beijo:

Para que assim eu não atraia,uma andorinha em vez de uma pomba,

Erotion ou Erinna para o meu amor.

Quem dera que o meu amor te matasse;fico saciado

vendo os vivos e de bom grado te queria morta.

Quem me dera a terra tivesse o teu corpo como fruto para comer,

E que nenhuma boca a nãos ser a de uma serpente te achasse doce.

Quem me dera encontrar maneiras cruéis de mandar matar,

Instrumentos violentos e um excessivo fluxo de dor;

Atormentar-te com agonias amorosas e ameaçar

A vida nos teus lábios e deixa-la aí para doer;

Retirar-te a alma com agonias demasiado suaves para matar,

Interlúdios intoleráveis e infinito mal;

Provocar reincidências e relutância do alento,

Melodias mudas e trêmulos murmúrios da morte.

Estou cansado de todas as tuas palavras e da tua estranha afabilidade,

De todas as noites escaldantes de amor e de todos os seus dias,

E de todos os beijos interrompidos,salgados como espuma,

Que lábios trêmulos tornam úmidos com um vinho mais leve,

E olhos mais azuis por todas aquelas horas escondidas

Que o prazer enche de lágrimas e alimenta de flores,

Cruel fogo no coração que principia a penetra-lo,

Mas deixando uma brancura de flor manchada à volta de azul;

A pálpebra inferior ardente,e a superior

Erguida com um sorriso ou confundida com o amor;


(Tradução de Maria de Lourdes Guimarães)


Algernon Charles Swinburne,cujo período de vida coincidiu quase inteiramente com o da imperatriz viúva Tzu-hsi,nasceu em 5 de abril de 1837 como o mais velho dos seis filhos do almirante Charles Henry Swinburne e sua esposa Lady Henrietta,filha do terceiro conde de Ashburnham.As duas famílias vinham dos tempos remotos em que o Kublai khan erguera seu palácio e que Dunwich negociava com todos os países que então se atingiam pelo mar.Até onde podia se lembrar,os Swinburne e os Ashburnham tinham sido cortesãos do rei,guerreiros importantes e militares,senhores de imensas propriedades e viajantes desbravadores.Um tio-avô de Algernon Swinburne,general Robert Swinburne,curiosamente e,devemos supor,por causa de fortes inclinações ultramontanas,foi súdito de Sua Majestade Apostólica Real e Imperial e alcançou a posição de barão do Sagrado-Império Romano.Morreu governador de Milão,e seu filho ocupou até sua morte em avançada idade em 1907 o cargo de camareiro-mor do imperador Francisco José.Possivelmente essa forma extrema de catolicismo político nessa ala da família foi um primeiro sinal de decadência.Mas apesar disso perguntava-se como de linhagens tão vitais pudera nascer uma criatura sempre tão próxima de um colapso nervoso,paradoxo que os biógrafos de Swinburne,particularmente interessados na origem e hereditariedade,tentaram resolver até concordarem em designar o poeta de Atalanta como um fênonemo epigenético além de todas as probabilidades naturais,por assim dizer surgido do nada.Com efeito,já devido à sua aparência externa,Swinburne devia parecer inteiramente estranho à família.Muito baixinho,em todas as fases de seu desenvolvimento bem aquém das medidas normais,de corpo assustadoramente delicado,mesmo assim já em menino tinha uma cabeça singularmente grande,fora das dimensões normais,sobre um pescoço frágil e ombros caídos.Sua cabeça extraordinária,acentuada ainda por cabelos cor de fogo espetados e brilhantes ohos verdes,era,como descreve um contemporâneo dele,an object of amazement at Eton. Já no dia em que chegou à escola-no verão de 1849 Swinburne acabava de fazer doze anos-seu chapéu era o maior entre todos os chapéus de Eton.E um certo Lindo Myers,com quem mais tarde no outono de 1868 Swinburne atravessou o Canal da Mancha saindo de Le Havre,descreve como,tendo o chapéu de Swinburne sido arrancado pelo vento e lançado sobre a amurada,ao chegarem em Southampton só na terceira chapelaria conseguiram um chapéu que lhe servisse,e mesmo então,acrescenta Myers,fora preciso retirar a fita de couro e o forro.

Mas apesar de sua extrema desproporção física,desde cedo,especialmente desde que lera nos jornais sobre o ataque em Balaclava,Swinburne sonhara entrar em um regimento de cavalaria e morrer como beau sabreur em uma batalha igualmente louca.Ainda durante seus estudos em Oxford essa visão superava todas as outras idéias que pudesse ter do seu futuro,e só quando a esperança de morrer como herói fracassou definitivamente devido a seu corpo subdesenvolvido,ele se lançou de corpo e alma na literatura,e com isso talvez em uma forma não menos radical de autodestruição.Provavelmente Swinburne nem teria superado suas crises nervosas cada vez mais graves,se não se tivesse submetido aos cuidados de seu companheiro de vida Watts DuntonEste em breve cuidava de toda a correspondência,de todas as pequenas coisas que deixavam Swinburne constantemente em pânico,e assim garantiu por quase três décadas a sobrevida pálida do poeta.

Em 1879,depois de um ataque de nervos,Swinburne fora trazido mais morto que vivo em um chamado four-wheeler para Putney Hill a sudoeste de Londres,e lá,na modesta villa de subúrbio com a inscrição Nr.2 The Pines,os dois solteirões viveram a partir dali evitando qualquer irritação.O dia transcorria sempre segundo um plano estabelecido por Watts Dunton.Este comentando com certo orgulho a eficiência do sistema que imaginara,teria dito que swinburne always walks in the morning,writes in the afternoon and reads in the evening.And what is more,at meal times he eats lik a caterpillar and at night he sleeps like a dormouse.

De vez em quando pela tarde convidava-se alguém que desejasse ver o poeta miraculoso exilado no subúrbio.Sentavam-se então em três à mesa na sombria sala de jantar.Watts,surdo,dominava a conversa com voz retumbante enquanto Swinburne,como uma criança bem educada,devorava um enorme pedaço de carne com a cabeça baixada sobre o prato.Um dos convidados que na virada do século visitou Putney escreve que os dois velhos senhores lhe pareceram insetos estranhos vivendo em uma garrafa de Leiden.Prossegue dizendo que repetidas vezes olhando Swinburne tivera de pensar em um bicho-da-seda cor de cinza,Bombix Mori,seja pela maneira como devorava pedacinho a pedacinho a comida que lhe era apresentada,seja porque a toda hora despertava do meio-sono que o atacava depois da refeição,como que invadido de nova energia elétrica,e com mãos esvoaçantes como uma mariposa assustada esgueirava-se pela sua biblioteca subindo e descendo pelas pilhas de livros e escadinhas para pegar das prateleiras uma ou outra preciosidade.O entusiasmo que o dominava então manifestava-se nos comentários rapsódicos sobre seus poetas prediletos-Marlowe,Landor e Hugo-,mas não raro também sobre lembranças de sua infância na Isle of Whight e em Northumberland.Numa dessas ocasiões por exemplo,nesse estado de êxtase completo,ele teria recordado com em menino se sentara aos pés de sua tia Ashburnham,muito velha,enquanto ela lhe falava do primeiro grande baile a que fora em menina em companhia da mãe.Depois desse baile haviam percorrido muitos quilômetros por uma noite de inverno clara de neve e gelada,até que de repente a carruagem foi detida por um grupo de vultos escuros que estavam enterrando um suicida em uma encruzilhada.Anotando essa lembrança de mais de um século e meio atrás ,escreve o convidado também já morto há tempos,ele podia voltar a ver com toda a nitidez a horrenda cena noturna de Hogarth como a descrevera Swinburne naquela ocasião,e ao mesmo tempo podia ver o menininho de cabeça grande e cabelos de fogo em pé,erguendo as mãos em súplica e pedindo:tell me more,Aunt Ashburnham,please tell me more.
(De "Os Anéis de Saturno" ,tradução de Lya Luft,editora Record,2002)





COGITO-TORQUATO NETO(1944-1972)


eu sou como eu sou

pronome

pessoal intransferível

do homem que iniciei

na medida do impossível


eu sou como eu sou

agora

sem grandes segredos dantes

sem novos secretos dentes

nesta hora


eu sou como eu sou

presente

desferrolhado indecente

feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou

vidente

e vivo tranquilamente

todas as horas do fim


PRÊMIO DARDOS


A professora Elaine dos Santos,do blog http://professoraelainedossantos.blogspot.com/

me outorgou o prêmio dardos.É a segunda vez que recebo o Dardos.Meu blogue completa dois meses precisamente hoje.Em tão pouco tempo ter um reconhecimento da comunidade blogueira,é uma alento a continuar blogando,e postando coisas de qualidade.Todos nós sabemos que um blog de qualidade toma tempo(e às vezes dinheiro hehe).Mas esse tempo é largamente recompensado com os que nos visitam ,comentam ,estimulam,e nos dão prêmios como esse.

Muito obrigado á professora Elaine e a todos que me visitam.Amanhã posto a minha lista de indicados.Um abraço a todos.


Carlos Drummond de Andrade-A poesia de Drummond é de uma fidelidade absoluta à precisão.À antiretórica,à vagueza da auto-indulgência e da autopiedade.

Maria Callas-Deve ser o que Ulisses ouviu,amarrado ao mastro,quando as sereias cantaram.È o que me lembra a voz de Callas no seu apogeu.

Albert Camus-Camus é de um palavrório estático,solene,pomposo,típico do provinciano que aprendeu as cadências majestosas dos clássicos franceses.

Capitalismo-Não há países ricos não-democráticos.

Cultura-Alta cultura é,na verdade,cultura,ponto.Ou seja,o máximo que o gênio humano produziu.

Salvador Dalí-O interessante sobre Dalí é que ele pintava bem,quando lhe dava na veneta.Ser espanhol,ter nascido no século XX e nada dever a Picasso ,estilisticamente,não é pouca porcaria.O Dalí palhaço,comercial,autor de n falcatruas que levam seu nome é que será lembrado.Mas,nos seus melhores momentos,sugere um discípulo meio doido de Velásquez.Poucos pintores do século XX foram capazes de recriar,really,com frescor,o figurativismo,como Dalí.

Emily Dickinson-Emily Dickinson foi a maior poeta mulher de todos os tempos.

Greta Garbo-Greta Garbo era única,e nunca houve atriz de cinema que lhe comparasse.O mais importante é que tinha um quê indefinível que faz dela a estrela absoluta do cinema durante duas décadas,uma qualidade na pessoa que mesmeriza o espectador.Garbo enchia uma tela e varria com quem contracenasse.

Judy Garland-Nenhum dos filmes de Judy Garland é memorável,nem mesmo Nasce uma estrela-A star is born.Ela é o que importa.Vê-la no palco.A única branca que nos toca no que temos de mais íntimo,quando canta.Exige nossa rendição incondicional.Seu rosto ansioso é hipnótico e sabemos que,naqueles filmes idiotas,está falando de coisas muito além do que aparece no script.

E por aí vai.Francis está a centenas de anos luz de distância de seus imitadores de quinta categoria,como o insuportável Diogo Mainardi e o inenarrável Olavo de Carvalho.Sua geração era aquela que podia discutir quase todos os assuntos numa mesa de bar,do cubismo à física de Einstein,e não se resumia a simplesmente jogar pedras nas vidraças alheias sem uma justificativa convincente.Aliás,que horror a idéia de colocá-lo no Manhattan Connection,onde destila seu mau humor constante e sua cultura de almanaque.Pobre Ricardo Amorim.

do livro-O diário da corte-organização de Daniel Piza,Companhia das Letras,1997.

TERÇA INSANA-SHEILA

First Lord:What time a day is't ,Apemantus?
Apemantus:Time to be honest.

Primeiro lorde-Que hora é essa,Apemantus?
Apemantus-Hora de ser honesto.
(Tradução livre)




A LUA E O TEIXO-SYLVIA PLATH(1932-1963)


Esta é a luz da mente,fria e planetária.
As árvores da mente são negras.A luz,azul,azul.
Gramados descarregam suas mágoas em meus pés como se eu fosse Deus,
Arranhando meus tornozelos,murmurando sua humildade.
Névoas vaporosas e espirituais habitam este lugar.
Separado de minha casa por uma fileira de lápides.
Simplesmente não posso ver onde vão dar.

A lua não tem porta.É uma face em seu pleno direito,
Branca como os nós dos dedos,terrivelmente incomodada.
Arrasta o mar atrás de si como um crime sujo;está quieta,
A boca aberta em total desespero.Moro aqui.
Duas vezes aos domingos os sinos assustam os céu-
Oito grandes línguas afirmam a Ressurreição.
E no final,sobriamente ,badalam seus nomes.

O teixo aponta para o alto.Tem força gótica.
Os olhos se elevam e encontram a lua.
A lua é minha mãe.Não é doce como Maria.
Suas vezes azuis libertam pequenos morcegos e corujas.
Se eu ainda acreditasse na ternura-
O rosto da efígie,suavizado por velas,
Derramando,sobre mim,seus olhos meigos.

Tenho caído pelo caminho.Nuvens florescem
Azuis e místicas sobre a face das estrelas.
Na igreja,os santos serão todos azuis,
Flutuando sobre bancos frios com delicados pés,
Suas mãos e pés duras de santidade.
A lua não vê nada disto.É calva e selvagem.
E a mensagem do teixo é escuridão-escuridão e silêncio.

(Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo)

ENQUANTO EU LIA O LIVRO-WALT WHITMAN(1819-1892)


Enquanto eu lia o livro,a famosa biografia:

-Então é isso(eu me perguntava)

o que o autor chama

a vida de um homem?

E é assim que alguém,

quando morto e ausente eu estiver,

irá escrever sobre a minha vida?

(Como se alguém realmente soubesse

de minha vida um nada,

quando até eu,eu mesmo,tantas vezes

sinto que pouco sei ou nada sei

da verdadeira vida que é a minha:

somente uns poucos traços

apagados,uns dados espalhados

e uns desvios que eu busco

para uso próprio,marcando o caminho

daqui afora)


(Tradução de Geir Campos)
OBS-Walt whitman para mim é uma dessas vozes que de muitos em muitos séculos nos fala direto à alma e ao coração,como um Homero,um Dante,Rimbaud,Pessoa ou Drummond.O grande rapsodo da modernidade,cantor das alegrias e das dores de todos nós.

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

O bicho,meu Deus,era um homem.

(Rio,27 de dezembro de 1947)







REFLEXÕES

"Penso que se deve conquistar as palavras vivendo-as,e que a aparente publicidade que o dicionário lhes dá é uma falsidade.Que ninguém se anime a escrever'arrabalde' sem haver caminhado por seus altos caminhos,sem havê-lo desejado e padecido como uma noiva,sem haver sentido suas cercas ,seus campos,suas luas na esquina de um armazém,como uma generosidade..."

"Um idioma é uma tradição,um modo de sentir a realidade,não um repertório arbitrário de símbolos."

"Contam que Ulisses,farto de prodígios,
Chorou de amor ao ver sua Ítaca
Verde e humilde.A arte é essa Ítaca
De verde eternidade,não de prodígios."

(Jorge Luis Borges)

O MAPA DA CÂMARA DOS DEPUTADOS

POEMA 2

Essa infausta alegria
de não sermos os únicos:
os que tudo almejam.
Esse caminho que leva
não a tesouros dourados,
mas às rutilantes sombras
dos sonhos
Essa glória que não é outra
senão a que tropeçando,
procuramos:
navios que encalham,salva-vidas
que nos jogam
Esse momento infinito
de sempres e agoras completo
em um único girar de roda;
Assim vivemos dentro de nós,
eu,um outro,alguns,
nesse agora que nos leva para
onde,não sei.
(james Penido)

DOM JOSÉ CARDOSO SOBRINHO,GIORDANO BRUNO E OUTROS HORRORES.




No dia 17 de fevereiro de 1.600,um homem foi conduzido numa carreta até a praça do Campo dei Fiori em Roma.Seu nome era Giordano Bruno,frade dominicano,filósofo,teólogo e cientista.Descendo da carreta,foi amarrado a um poste cercado de enormes feixes de palha.Havia ,pouco antes,sido condenado a ser queimado vivo pelo tribunal do santo ofício,pois o desinfeliz afirmara que a terra girava em torno do sol,que a terra não era o centro do universo e que havia uma pluralidade de outros mundos além do nosso,espalhados por incontáveis sistemas,regidos por incontáveis estrelas.E Bruno ousara afirmar até o fim que assim era e não poderia trair a si mesmo.


Nunca saberemos o que passava pela cabeça de Giordano Bruno,naquela manhã de inverno romano;o que sentiu quando viu a estaca e a palha à qual seria atiçado o fogo que o consumiria vivo.Pobre Bruno.Bravo homem que teve a honra de manter suas convicções até o fim ,mesmo diante de uma dor incalculável e inenarrável.


Esse e outros milhares de horrores pontilharam a vida cotidiana dos católicos durante séculos.Ai dos que tivessem a audácia de pensar diferente!A mensagem evangélica de Jesus foi simplesmente banida e varrida de cena,em nome de supostos dogmas ortodoxos,que custasse o que custasse tinham de ser mantidos.Defesa da escravidão,do desequilíbrio social,da opressão da mulher e dos homessexuais,silêncio ante a devastação das florestas,da exploração colonial-essas foram durante séculos ,as bandeiras sangrentas da cúpula da igreja católica.


E eis que em Março de 2009,no ocidente,que supostamente teria se livrado de toda essa batelada de pavores e práticas rançosas,o sr Dom José Cardoso Sobrinho,arcebispo de Olinda e Recife vem a público excomungar uma equipe médica que praticou o aborto numa menina de nove anos,seguidamente abusada pelo padrasto.É um insulto às leis mais elementares do bom senso e dos que se dizem cristãos,afirmar como o arcebispo que "pior que o estupro,é o aborto".Desprezo grosseiro pelo sofrimento psicológico(e físico)dessa criança,que aos nove anos teve que passar por esse calvário de abuso sexual,gravidez e aborto.Desprezo pelo bom senso da humanidade,desprezo pela mãe da garota,que sua reverendíssima também excomungou.Qual era a proposta da igreja?Que ela levasse a frente essa gravidez,com riscos gravíssimos a sua própria vida,com um enorme aumento de sofrimento psicológico?


Devemos reagir,não permitir que essas pessoas coloquem uma venda em nossos olhos.Eles não são(nem nunca foram)os donos da verdade.A morte de Giordano Bruno e de milhares de outras pessoas,das "bruxas",pelos séculos afora ,devem nos dar um elemento maior de reflexão.São esses os valores de uma sociedade sã,de pessoas que trabalham,amam e tentam ser a cada dia melhores?

PAUL VERLAINE(1844-1896)-CHANSON D'AUTOMNE-CANÇÃO DE OUTONO(1866).


Les sanglots longs

Des violons

De l'automne

Blessent mon coeur

D'une langueur

Monotone.


Tout suffocant

Et blême,quand

Sonne l'heure,

Je me souviens

Des jours anciens

Et je pleure.


Et je m'en vais

Au vent mauvais

Qui m'emporte

Deçà,delà

Pareil à la

Feuille morte.



Os soluços graves

Dos violinos suaves

Do outono

Ferem a minh'alma

Num langor de calma

E sono.


Sufocado,em ânsia,

Ai!quando à distância

Soa a hora,

Meu peito magoado

Relembra o passado

E chora.


Daqui,dali,pelo

Vento em atropelo

Seguido,

Vou de porta em porta,

Como a folha morta,

Batido...


(Tradução de Alphonsus de Guimaraens-1870-1921)


Cheguei.Chegaste.Vinhas fatigada

E triste,e triste e fatigado eu vinha.

Tinhas a alma de sonhos povoada,

E a alma de sonhos povoada eu tinha...


E paramos de súbito na estrada

Da vida:longos anos,presa à minha

A tua mão,a vista deslumbrada

Tive da luz que teu olhar continha.


Hoje,segues de novo...Na partida

Nem o pranto os teus olhos umedece,

Nem te comove a dor da despedida.


E eu,solitário,volto a face,e tremo,

Vendo o teu vulto que desaparece

Na extrema curva do caminho extremo.
Observação:-A poesia parnasiana,especialmente a de Olavo Bilac,tem sido objeto de um massacre
da crítica que já dura décadas.Uma pretensa crítica "pós-moderna',que se arrega o direito de interpretar todo o fenômeno literário em termos político-econômicos,sendo que o estético aparece muitas vezes como mero "aspecto alienante-alienado".Eu,por mim,sou um fervoroso devoto do credo estético.Acredito ser uma falácia o fato de não interpretarmos o mundo segundo critérios estéticos.E recuso terminantemente qualquer rótulo de "alienado".Quem sou eu,mas acredito que um Rimbaud,uma Virginia Woolf,um Proust,Joyce,Sebald,Borges,et alii(isso para falar dos maiores) interpretavam o mundo segundo um critério de BELEZA.A política é obviamente importante na vida de qualquer pessoa,mas ao meu ver, política+arte não têm nada em comum.Semprei achei estranho o suposto discurso "pós-moderno" do fim das narrativas,etc.Basta dar uma olhada no noticíario para ver que novas e terríveis narrativas estão surgindo.E acredito que a nossa aventura nesse planeta está,de certa forma, começando (de novo).E quantos recantos da Terra ainda nem conhecem uma mera modernidade?O ocidente deve se lembrar da mais simplória noção de processo histórico-vejam a China,a India e o Brasil(porque não?).Mas voltando ao parnasianismo,é preciso reivindicar a beleza e a modernidade mesma desse movimento,como tantos outros,engolidos pelo lamentável politicamente correto.

DANTE ALIGHIERI(1265-1321)-DIVINA COMÉDIA -CANTO I-FRAGMENTO.


Nel mezzo del cammin de nostra vita
-A meio caminho de nossa vida
mi ritrovai per una selva oscura,
-fui me encontrarem uma selva escura:
ché la diritta via era smarrita.
-estava a reta minha via perdida.

Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
-Ah!que a tarefa de narrar é dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
-essa selva selvagem,rude e forte,
che nel pensier rinova la paura!
-que volve o medo à mente que a figura.

Tant'è amara che poco è piu morte:
-De tão amarga ,pouco mais lhe é a morte,
ma per trattar del ben ch'i'vi trovai,
-mas,para tratar do bem que enfim lá achei,
dirò de l'altre cose ch'i'v'ho scorte.
-direi do mais que me guardava a sorte.

Io non so ben ridir com'i'v'intrai,
-Como lá fui parar dizer não sei;
Tant'era pien di sonno a quel punto
-tão tolhido de sono me encontrava,
che la verace via abbandonai.
-que a verdadeira via abandonei.

Ma poi ch'i'fui al piè d'un colle giunto,
-Mas quando ao pé de um monte eu já chegava,
lá dove terminava quella valle
-tendo o fim desse vale à minha frente,
che m'avea di paura il cor compunto,
que o coração de medo me cerrava,

guardai in alto,e vidi le sue spalle
-olhei para o alto e vi a sua vertente
vestite già de'raggi del pianetta
-vestida já dos raios do planeta
che mena dritto altrui per ogne calle
-que certo guia por toda estrada a gente.

Allor fu la paura un poco queta,
-Tornou-se a minha angústia então mais quieta
che nel lago del cor m'era durata
-que no lago do coração guardara
la notte ch'i'passai con tanta pieta.
-toda essa noite de pavor repleta.

E come quei che con lena affannata,
-E como aquele que ofegando vara
uscito fuor del pelago a la riva,
-o mar bravio e,da praia atingida,
si volge a l'acqua perigliosa e guata,
-volta-se a onda perigosa,e a encara,

cosí l'animo mio,ch'ancor fuggiva,
-minha mente,nem bem de lá fugida,
si volse a retro a rimitar lo passo
-voltou-se a remirar o horrendo passo
che non lasciò già mai persona viva.
-que pessoa alguma já deixou com vida.

Poi ch'ei posato un poco il corpo lasso,
-Após pousar um pouco o corpo lasso,
ripresi via per la piaggia diserta,
-me encaminhei,pela encosta deserta,
sí che'l piè fermo sempre era'l piú basso.
-co'o pé firme mais baixo a cada passo.

(Tradução de Italo Eugenio Mauro)


Os anjos comunicaram-me que,quando faleceu Melanchton,foi-lhe fornecida no outro mundo uma casa ilusoriamente igual à que havia ocupado na terra.(A quase todos recém-vindos à Eternidade sucede o mesmo e por isso acreditam não terem morrido.)Os objetos domésticos eram iguais;a mesa;a escrivaninha com suas gavetas,a biblioteca.Quando Melanchton despertou nesse domicílio,retornou a suas tarefas literárias como se não fosse um cadáver,e escreveu durante alguns dias sobre a justificativa pela fé.Como era seu costume,não disse palavra sobre a caridade.Os anjos notaram essa omissão e mandaram algumas pessoas interrogarem-no.Melanchton declarou:"Já demonstrei irrefutavelmente que a alma pode prescindir da caridade e para que para ingressar no céu basta ter fé."Essas coisas dizia-lhes com soberba e não sabia que já estava morto e que seu lugar não era o céu.Quando os anjos ouviram esse discurso,abandonaram-no.

Poucas semanas depois,os móveis começaram a afantasmar-se até se tornarem invisíveis,salvo a poltrona,a mesa,as folhas de papel e o tinteiro.Além disso,as paredes do aposento mancharam-se de cal e o assoalho de um verniz amarelo.Sua própria roupa já estava muito mais ordinária.Contudo,ele continuava escrevendo,mas,como persistia na negação da caridade,transladaram-no para uma oficina subterrânea onde havia outros teólogos como ele.Aí esteve alguns dias encarcerado e começou a duvidar de sua tese;permitiram-lhe voltar.Sua roupa era de couro sem curtir,mas tentou imaginar que os fatos anteriores haviam sido mera alucinação e continuou elevendo a fé e denegrindo a caridade.Num entardecer sentiu frio.Então percorreu a casa e percebeu que os demais aposentos já não correspondiam aos de sua moradia na terra.Um estava repleto de instrumentos desconhecidos;outro tinha diminuído tanto que era impossível entrar nele;outro não tinha mudado,mas as janelas e portas davam para grandes dunas.O cômodo dos fundos estava cheio de pessoas que o adoravam e que lhe repetiam que nenhum teólogo era tão sapiente quanto ele.Essa adoração agradou-lhe,mas como algumas dessas pessoas não tinham rosto e outras pareciam estar mortas,acabou se aborrecendo e desconfiando delas.Então determinou-se escrever um elogio da caridade,mas as páginas escritas hoje apareciam amanhã apagadas.Isso lhe aconteceu porque as compunha sem convicção.

Recebia muitas visitas de gente recém-morta,porém tinha vergonha de se mostrar num alojamento tão sórdido.Para faze-las crer que estava no céu,combinou com um bruxo do cômodo dos fundos,e este as enganava com simulacros de esplendor e serenidade.Apenas as visitas se retiravam,reapareciam a pobreza e a cal,e às vezes um pouco antes.

As últimas notícias de Melanchton dizem que o mago e um dos homens sem rosto levaram-no até as dunas e que agora é como se fosse criado dos demônios.

(Tradução de Alexandre Eulálio)

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KEANE-EVERYBODY'S CHANGING-EU AMO ESSA MÚSICA.DEDICADA A TODOS OS MEUS AMIGOS.

PRÊMIO DARDOS


Caros amigos,à propósito do Prêmio Dardos,os indicados devem seguir as seguintes instruções:


-Devem exibir a imagem do prêmio em seu blogue;


-Deve linkar o blog pelo qual recebeu a sua indicação;


-Escolher outros 10 blogues a quem entregar o prêmio Dardos;


-Avisar os escolhidos.


Muito obrigado pela atenção.



PRÊMIO DARDOS


Meu blog-minha literatura agora foi presenteado com o prêmio Dardos,gentilmente indicado pelo Rômulo,do blogue Interdito(http://romulopsouza.blogspot.com).sinceramente/ foi uma ótima surpresa,a melhor do ano ,até agora.Sinto-me lisonjeado por receber o Dardos,que é como se fosse um voto de confiança da comunidade blogueira.Comecei meu blogue há pouco mais de um mês,e confesso que no começo,tive momentos de desânimo,de vontade de parar-para que escrever,se ninguém me acompanha,etc.Com o tempo,claro ,tudo isso foi passando,e agora considero que estou no caminho certo.Estou atento agora a quem também está começando e tenho visto blogues super originais .Sei de todo o trabalho que é manter um sítio atualizado,que é manter a qualidade.Quero parabenizar a todos aqui.E os dez blogues que escolhi,foram selecionados quanto à excelência e a labuta de passar coisas positivas às pessoas.Não são um melhor que o outro:são todos fabulosos.Parabéns.aqui vai minha lista:

nudezpoetica.blogspot.com
andrebenjamim.blogspot.com
brunoblessed.blogspot.com
cosmunicando.blogspot.com
fernandeshercilia.blogspot.com (hf diante do espelho)
antologiadoesquecimento.blogspot.com (Insónia)
olugarqueimporta.blogspot.com
leonorcordeiro.blogspot.com
opoetademeiatigela.blogspot.com
renataemessencia.blogspot.com

muito obrigado a todos.Um abraço do james.Todos os blogues estão na minha lista de blogues.


Nas profundezas da África Equatorial o explorador francês Marcel Petre, caçador e homem do mundo, topou com uma tribo de pigmeus de uma pequenez surpreendente. Mais surpreso, pois, ficou ao ser informado de que menor povo ainda existia além de florestas e distâncias. Então mais fundo ele foi.No Congo Central descobriu realmente os menores pigmeus do mundo. E — como uma caixa dentro de um caixa — entre os menores pigmeus do mundo estava o menor dos menores pigmeus do mundo, obedecendo talvez à necessidade que às vezes a Natureza tem de exceder a si própria.Entre mosquitos e árvores mornas de umidade, entre as folhas ricas do verde mais preguiçoso, Marcel Pretre defrontou-se com uma mulher de quarenta e cinco centímetros, madura, negra, calada. "Escura como um macaco", informaria ele à imprensa, e que vivia no topo de uma árvore com seu concubino. Nos tépidos humores silvestres, que arredondam cedo as frutas e lhes dão uma quase intolerável doçura ao paladar, ela estava grávida.Ali em pé estava, portanto, a menor mulher do mundo. Por um instante, no zumbido do calor, foi como se o francês tivesse inesperadamente chegado à conclusão última. Na certa, apenas por não ser louco, é que sua alma não desvairou nem perdeu os limites. Sentindo necessidade imediata de ordem, e dar nome ao que existe, apelidou-a de Pequena Flor. E, para conseguir classificá-la entre as realidades reconhecíveis, logo passou a colher dados a seu respeito.Sua raça de gente está aos poucos sendo exterminada. Poucos exemplares humanos restam dessa espécie que, não fosse o sonso perigo da África, seria povo alastrado. Fora doença, infectado hálito de águas, comida deficiente e feras rondantes, o grande risco para os escassos Likoualas está nos selvagens Bantos, ameaça que os rodeia em ar silencioso como em madrugada de batalha. Os Bantos os caçam em redes, como fazem com os macacos. E os comem. Assim: caçam-nos em redes e os comem. A racinha de gente, sempre a recuar e a recuar, terminou aquarteirando-se no coração da África, onde o explorador afortunado a descobriria. Por defesa estratégica, moram nas árvores mais altas. De onde as mulheres descem para cozinhar milho, moer mandioca e colher verduras; os homens, para caçar. Quando um filho nasce, a liberdade lhe é dada quase que imediatamente. É verdade que muitas vezes a criança não usufruirá por muito tempo dessa liberdade entre feras. Mas é verdade que, pelo menos, não se lamentará que, para tão curta vida, longo tenha sido o trabalho. Pois mesmo a linguagem que a criança aprende é breve e simples, apenas essencial. Os Likoualas usam poucos nomes, chamam as coisas por gestos e sons animais. Como avanço espiritual, têm um tambor. Enquanto dançam ao som do tambor, um machado pequeno fica de guarda contra os Bantos, que virão não se sabe de onde.Foi, pois, assim que o explorador descobriu, toda em pé e a seus pés, a coisa humana menor que existe. Seu coração bateu porque esmeralda nenhuma é tão rara. Nem os ensinamentos dos sábios da Índia são tão raros. Nem o homem mais rico do mundo já pôs olhos sobre tanta estranha graça. Ali estava uma mulher que a gulodice do mais fino sonho jamais pudera imaginar. Foi então que o explorador disse, timidamente e com uma delicadeza de sentimentos de que sua esposa jamais o julgaria capaz:— Você é Pequena Flor.Nesse instante Pequena Flor coçou-se onde uma pessoa não se coça. O explorador — como se estivesse recebendo o mais alto prêmio de castidade a que um homem, sempre tão idealista, ousa aspirar — o explorador, tão vívido, desviou os olhos.A fotografia de Pequena Flor foi publicada no suplemento colorido dos jornais de domingo, onde coube em tamanho natural. Enrolada num pano, com a barriga em estado adiantado. O nariz chato, a cara preta, os olhos fundos, os pés espalmados. Parecia um cachorro.Nesse domingo, num apartamento, uma mulher, ao olhar no jornal aberto o retrato de Pequena Flor, não quis olhar uma segunda vez "porque me dá aflição".Em outro apartamento uma senhora teve tal perversa ternura pela pequenez da mulher africana que — sendo tão melhor prevenir que remediar — jamais se deveria deixar Pequena Flor sozinha com a ternura da senhora. Quem sabe a que escuridão de amor pode chegar o carinho. A senhora passou um dia perturbada, dir-se-ia tomada pela saudade. Aliás era primavera, uma bondade perigosa estava no ar.Em outra casa uma menina de cinco anos de idade, vendo o retrato e ouvindo os comentários, ficou espantada. Naquela casa de adultos, essa menina fora até agora o menor dos seres humanos. E se isso era fonte das melhores carícias, era também fonte deste primeiro medo do amor tirano. A existência de Pequena Flor levou a menina a sentir — com uma vaguidão que só anos e anos depois, por motivos bem diferentes, havia de se concretizar em pensamento — levou-a a sentir, numa primeira sabedoria, que "a desgraça não tem limites".Em outra casa, na sagração da primavera, a moça noiva teve um êxtase de piedade:— Mamãe, olhe o retratinho dela, coitadinha! Olhe só como ela é tristinha!— Mas — disse a mãe, dura e derrotada e orgulhosa — mas é tristeza de bicho, não é tristeza humana.— Oh! Mamãe — disse a moça desanimada.Foi em outra casa que um menino esperto teve uma idéia esperta:— Mamãe, e se eu botasse essa mulherzinha africana na cama de Paulinho enquanto ele está dormindo? quando ele acordasse, que susto, hein! que berro, vendo ela sentada na cama! E a gente então brincava tanto com ela! a gente fazia ela o brinquedo da gente, hein!A mãe dele estava nesse instante enrolando os cabelos em frente ao espelho do banheiro, e lembrou-se do que uma cozinheira lhe contara do tempo de orfanato. Não tendo boneca com que brincar, e a maternidade já pulsando terrível no coração das órfãs, as meninas sabidas haviam escondido da freira a morte de uma das garotas. Guardaram o cadáver num armário até a freira sair, e brincaram com a menina morta, deram-lhe banhos e comidinhas, puseram-na de castigo somente para depois poder beijá-la, consolando-a. Disso a mãe se lembrou no banheiro, e abaixou mãos pensas, cheias de grampos. E considerou a cruel necessidade de amar. Considerou a malignidade de nosso desejo de ser feliz. Considerou a ferocidade com que queremos brincar. E o número de vezes em que mataremos por amor. Então olhou para o filho esperto como se olhasse para um perigoso estranho. E teve terror da própria alma que, mais que seu corpo, havia engendrado aquele ser apto à vida e à felicidade. Assim olhou ela, com muita atenção e um orgulho inconfortável, aquele menino que já estava sem os dois dentes da frente, a evolução, a evolução se fazendo, dente caindo para nascer o que melhor morde. "Vou comprar um terno novo para ele", resolveu olhando-o absorta. Obstinadamente enfeitava o filho desdentado com roupas finas, obstinadamente queria-o bem limpo, como se limpeza desse ênfase a uma superficialidade tranqüilizadora, obstinadamente aperfeiçoando o lado cortês da beleza. Obstinadamente afastando-se, e afastando-o, de alguma coisa que devia ser "escura como um macaco". Então, olhando para o espelho do banheiro, a mãe sorriu intencionalmente fina e polida, colocando, entre aquele seu rosto de linhas abstratas e a cara crua de Pequena Flor, a distância insuperável de milênios. Mas, com anos de prática, sabia que este seria um domingo em que teria de disfarçar de si mesma a ansiedade, o sonho, e milênios perdidos.Em outra casa, junto a uma parede, deram-se ao trabalho alvoroçado de calcular com fita métrica os quarenta e cinco centímetros de Pequena Flor. E foi aí mesmo que, em delícia, se espantaram: ela era ainda menor que o mais agudo da imaginação inventaria. No coração de cada membro da família nasceu, nostálgico, o desejo de ter para si aquela coisa miúda e indomável, aquela coisa salva de ser comida, aquela fonte permanente de caridade. A alma ávida da família queria devotar-se. E, mesmo, quem já não desejou possuir um ser humano só para si? O que, é verdade, nem sempre seria cômodo, há horas em que não se quer ter sentimentos:— Aposto que se ela morasse aqui terminava em briga — disse o pai sentado na poltrona, virando definitivamente a página do jornal. — Nesta casa tudo termina em briga.— Você, José, sempre pessimista — disse a mãe.— A senhora já pensou, mamãe, de que tamanho será o nenezinho dela? — disse ardente a filha mais velha de treze anos.O pai mexeu-se atrás do jornal.— Deve ser o bebê preto menor do mundo — respondeu a mãe, derretendo-se de gosto. — Imagine só ela servindo a mesa aqui de casa! E de barriguinha grande!— Chega de conversas! — disse o pai.— Você há de convir — disse a mãe inesperadamente ofendida — que se trata de uma coisa rara. Você é que é insensível.E a própria coisa rara?Enquanto isso na África, a própria coisa rara tinha no coração — quem sabe se negro também, pois numa Natureza que errou uma vez já não se pode mais confiar — enquanto isso a própria coisa rara tinha no coração algo mais raro ainda, assim como o segredo do próprio segredo: um filho mínimo. Metodicamente o explorador examinou com o olhar a barriguinha do menor ser humano maduro. Foi neste instante que o explorador, pela primeira vez desde que a conhecera, em vez de sentir curiosidade ou exaltação ou vitória ou espírito científico, o explorador sentiu mal-estar.É que a menor mulher do mundo estava rindo.Estava rindo, quente, quente. Pequena Flor estava gozando a vida. A própria coisa rara estava tendo a inefável sensação de ainda não ter sido comida. Não ter sido comida era que, em outras horas, lhe dava o ágil impulso de pular de galho em galho. Mas, neste momento de tranqüilidade, entre as espessas folhas do Congo Central, ela não estava aplicando esse impulso numa ação — e o impulso se concentrara todo na própria pequenez da própria coisa rara. E então ela estava rindo. Era um riso como somente quem não fala, ri. Esse riso, o explorador constrangido não conseguiu classificar. E ela continuou fruindo o próprio riso macio, ela que não estava sendo devorada. Não ser devorado é o sentimento mais perfeito. Não ser devorado é o objetivo secreto de toda uma vida. Enquanto ela não estava sendo comida, seu riso bestial era tão delicado como é delicada a alegria. O explorador estava atrapalhado.Em segundo lugar, se a própria coisa rara estava rindo, era porque, dentro dessa sua pequenez, grande escuridão pudera-se em movimento.É que a própria coisa rara sentia o peito morno do que se pode chamar de Amor. Ela amava aquele explorador amarelo. Se soubesse falar e dissesse que o amava, ele inflaria de vaidade. Vaidade que diminuiria quando ela acrescentasse que também amava muito o anel do explorador e que amava muito a bota do explorador. E quando este desinchasse desapontado, Pequena Flor não compreenderia por quê. Pois, nem de longe, seu amor pelo explorador — pode-se mesmo dizer seu "profundo amor", porque, não tendo outros recursos, ela estava reduzida à profundeza — pois nem de longe seu profundo amor pelo explorador ficaria desvalorizado pelo fato de ela também amar sua bota. Há um velho equívoco sobre a palavra amor, e, se muitos filhos nascem desse equívoco, tantos outros perderam o único instante de nascer apenas por causa de uma suscetibilidade que exige que seja de mim, de mim! que se goste, e não de meu dinheiro. Mas na umidade da floresta não há desses refinamentos cruéis, e amor é não ser comido, amor é achar bonita uma bota, amor é gostar da cor rara de um homem que não é negro, amor é rir de amor a um anel que brilha. Pequena Flor piscava de amor, e riu quente, pequena, grávida, quente.O explorador tentou sorrir-lhe de volta, sem saber exatamente a que abismo seu sorriso respondia, e então perturbou-se como só homem de tamanho grande se perturba. Disfarçou ajeitando melhor o chapéu de explorador, corou pudico. Tornou-se uma cor linda, a sua, de um rosa-esverdeado, como a de um limão de madrugada. Ele devia ser azedo.Foi provavelmente ao ajeitar o capacete simbólico que o explorador se chamou à ordem, recuperou com severidade a disciplina de trabalho, e recomeçou a anotar. Aprendera a entender algumas das poucas palavras articuladas da tribo, e a interpretar os sinais. Já conseguia fazer perguntas.Pequena Flor respondeu-lhe que "sim". Que era muito bom ter uma árvore para morar, sua, sua mesmo. Pois — e isso ela não disse, mas seus olhos se tornaram tão escuros que o disseram — pois é bom possuir, é bom possuir, é bom possuir. O explorador pestanejou várias vezes.Marcel Petre teve vários momentos difíceis consigo mesmo. Mas pelo menos ocupou-se em tomar notas e notas. Quem não tomou notas é que teve que se arranjar como pôde:Pois olhe — declarou de repente uma velha fechando o jornal com decisão — pois olhe, eu só lhe digo uma coisa: Deus sabe o que faz..

(de Laços de Família)




Link-Me


Traço,sozinho,no meu cubículo de engenheiro,o plano,

Formo o projeto,aqui isolado,

Remoto até de quem eu sou.

Ao lado,acompanhamento banalmente sinistro,

O ti-tac estalado das máquinas de escrever.

Que náusea da vida!

Que abjeção esta regularidade!

Que sono este ser assim!

Outrora ,quando fui outro,eram castelos e cavalarias

(ilustrações,talvez,de qualquer livro de infância),

Outrora,quando fui verdadeiro ao meu sonho,

Eram grandes paisagens do Norte,explícitas de neve,

Eram grandes palmares do sul,opulentos de verdes.

Outrora...

Ao lado,aompanhamento banalmente sinistro,

O tic-tac estalado das máquinas de escrever,

Temos todos duas vidas:

A verdadeira,que é a que sonhamos na infância,

E que continuamos sonhando,adultos,num substrato de névoa;

A falsa,que é a que vivemos em convivência com outros;

Que é a prática,a útil

Aquela em que acabam por nos meter num caixão

Na outra não há caixões nem mortes.

Há só ilustrações de infância:

Grandes livros coloridos,para ver mas não ler;

Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.

Na outra somos nós,

Na outra vivemos;

Nesta morremos,que é o que viver quer dizer.

Neste momento,pela náusea,vivo só na outra...

Mas ao lado,acompanhamento banalmente sinistro,

Se,desmeditando,escuto,

Ergue a voz o tic-tac estalado das máquinas de escrever.