PAVÃO VERMELHO,DE SOSÍGENES COSTA(1901-1968)


Ora,a alegria,este pavão vermelho,

está morando em meu quintal agora.

Vem pousar como um sol em meu joelho

quando é estridente em meu quintal a aurora.


Clarim de lacre,esse pavão vermelho

sobrepuja os pavões que estão lá fora.

É uma festa de púrpura.E o assemelho

a uma chama do lábaro da aurora.


É o próprio doge a se mirar no espelho.

E a cor vermelha chega a ser sonora

neste pavão pomposo e de chavelho.


Pavõs lilás possuí outrora.

Depois que amei este pavão vermelho,

os meus outros pavões foram-se embora.

1 comentários:

1

disse...

Tendo como ponto de partida “a rápida visão, a captação imediata do momento, à maneira de um impressionista do verso, transformando-o em poesia”, como bem acentuou Celina Scheinowitz, em O Cromatismo poético: os Sonetos Pavônicos de Sosígenes Costa, numa profusão de imagens sensoriais, para onde o pessimismo e o sofrimento típicos do existencialismo ateu não têm voz nem vez, abrindo-se, cromaticamente, a uma percepção viva das coisas, onde só os sentidos perecem interessar quanto mais mesclados possam parecer, ou, como melhor acentuou Florisvaldo Mattos, em Travessia de Oásis: a sensualidade na poesia de Sosígenes Costa, prolifera, na poesia do bardo baiano, “um portento trânsito de percepções, determinado pelo entrelaçamento dos sentidos, facultando múltiplas combinações que dão suporte a imagens encarnadas de transmitir o conteúdo de um fato acontecido na ordem natural ou pessoal”. Este suporte imagético, entretanto, é fruto muito mais do ritmo, da musicalidade e da força moldável de sua métrica do que de seu gosto sensorial.

Esta musicalidade, presente em sua poesia, em certos pontos, parece-me servir de meio para arrancar, de seu leitor, a atenção mais acurada e meramente racional, que, entre tantas coisas, roubaria, a seus versos, esta extravagante contemplação do instantâneo, na qual toda a sua obra, principalmente a mais madura, fundamenta-se, e, sem sombra de dúvidas, donde consegue extrair originalidade e beleza da mais excessiva abstração, graças a um domínio muito pessoal sobre a palavra, numa intuição particularmente sensível dos efeitos cromáticos, rítmicos e musicais, encontrando maior representação somente, entre seus contemporâneos, nos sonetos, de Carlos Pena Filho.