A Máquina do Mundo(fragmento)


E como eu palmilhasse vagamente

uma estrada de Minas,pedregosa,

e no fecho da tarde um sino rouco


se misturasse ao som de meus sapatos

que era pausado e seco;e aves pairassem

no céu de chumbo,e suas formas pretas


lentamente se fossem diluindo

na escuridão maior,vinda dos montes

e de meu próprio ser desenganado,


a máquina do mundo se entreabriu

para quem de a romper já se esquivava

e só de o ter pensado se carpia.


Abriu-se a majestosa e circunspecta,

sem emitir um som que fosse impuro

nem um clarão maior que o tolerável


pelas pupilas gastas na inspecção

contínua e dolorosa do deserto,

e pela mente exausta de mentar


toda uma realidade que transcende

a própria imagem sua debuxada

no rosto do mistério,nos abismos.


Abriu-se em calma pura,e convidando

quantos sentidos e intuições restavam

a quem de os ter suado os já perdera


e nem desejaria recobrá-los,

se em vão e para sempre repetimos

os mesmos sem roteiro tristes périplos,


convidando-os a todos,em coorte,

a se aplicarem sobre o pasto inédito

da natureza mística das coisas.


(Carlos Drummond de Andrade)

4 comentários:

Wesley Viana

11 de abril de 2009 12:38
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disse...

Esse é um dos meus poemas favoritos de Drummond.

Suely

11 de abril de 2009 12:56
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1

disse...

Oi, James!!!

Adoro Drummond!!! Em especial esse poema!!!

Obrigada pela visita ao Ufa!!!

Como não concordo quando dizem que a gurizada não gosta de ler... e tu já deves ter ouvido isso... resolvi relatar a experiência da visita aos (escassos) espaços de "cultura" do munícípio... Foi uma tarde e tanto!!!

Eu trabalho com as disciplinas de língua portuguesa e literatura, no curso normal em nível médio e no ensino médio!!! Adoro isso!!!

Estamos construindo dois blogs:
o Espichando a conversa (http://espichandoaconversa.blogspot.com) e o Catando poesia... (esse ainda não saiu da ideia ainda, depois te mando o endereço)!

Valeu a parceria!!!

Abraços!!!

james p.

11 de abril de 2009 17:24
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disse...

oi,wesley.Eu acho esse poema um dos mais belos de todos que conheço.Acho que na nossa literatura,são pouquíssimos os que se igualam.E drummond,sei lá ,é mais um presente do Brasil para o mundo.abraços do james.

james p.

11 de abril de 2009 17:27
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disse...

Suely,acho muito legal esse tipo de trabalho que você está fazendo.Acho que com incentivo,todo mundo descobre a leitura.É realmente conpensador depois de um trabalho como esse,ver os mais jovenas gostando de ler.Abraço.