Para ver-Satyricon(1969) de Federico Fellini

Três malandros:Encólpio,Ascilto e Giton, viajam pelo império romano durante o reinado de Nero(54-68 d.c.),vivendo as mais bizarras e absurdas aventuras.Resumindo assim,Satyricon,uma das obras primas do grande Federico Fellini,pode parecer mais um desses filmes que se passam na antiguidade clássica.Mas ao adaptar a narrativa (na verdade um fragmento de uma obra muito mais extensa) atribuída a Petronius Arbiter(um aristocrata da corte imperial),Fellini realizou um de seus filmes mais contundentes e oníricos.
A sociedade retratada em Satyricon é a do império romano então 'senhor do mundo',no auge de seu poder e esplendor,ao mesmo tempo em que emergiam os primeiros sinais da decadência irreversível.Nessa época,dominada pela ostentação,pela opressão política e pela corrosão social,os romanos,por assim dizer,deitavam-se sobre a cama dourada propiciada pelo dinheiro vindo de todas as partes do mundo conhecido e dominado a ferro e fogo pelo poderoso exército do império.
A riqueza(imensa e usufruída por poucos)dava o tom de um modo de vida direcionado inteiramente para o prazer imediato(fosse ele de qualquer natureza)a qualquer custo.A elite e a classe média instruída enxergavam nos prazeres o único alento em um mundo brutal e sem os deuses em que não acreditavam mais;a chamada 'ralé'(os cidadãos romanos pobres) se apertavam nos subúrbios e nos cortiços das grandes cidades do império,sempre pronta para os horrores do circo e para a exigência de mais benefícios e menos trabalho;e os escravos,vistos como 'seres sem alma',meros 'animais de carga',esfalfavam-se para atender seus donos nas mais absurdas e inomináveis exigências. Em plena era 'flower power' do final dos anos 60,Fellini realiza Satyricon de maneira histriônica,quase operística,com cores fortes em meio às sombras.Seus três personagens principais passeiam por um mundo que oscila entre o sonho e o pesadelo,em cenários de um requinte seco,de tons lavados.Todo o furor suicida da elite romana e de seus párias nos é mostrado de uma maneira única,psicodélica,estonteante.Sem nenhum tom moralista ou moralizante,o diretor italiano mostra sem véus a opressão,a desesperança,o desprezo pelo outro,a grosseria de uma elite que se julga dona de valores inquestionáveis;mas que está perdida e nem mesmo sabe disso.Uma obra de protesto contra a mercantilização da vida e do ser humano,contra os que se pretendem ser o 'supra sumo' sem se dar conta que a opressão,de qualquer natureza,um dia cobra seu preço.Uma análise profunda da decadência de todos os sistemas que se auto- outorgam o título de organizadores e intérpretes de uma sociedade.Um apólogo contra a dominação ,contra o cinismo dos que se acham melhores que o 'resto'.Uma obra prima para ser vista com atenção.


11 comentários:

Paulo Braccini

18 de junho de 2009 09:43
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disse...

eita vc tb adora surpreender eim? FELINI e toda a sua sagacidade e citicidade ... adoro este clássico ... já assisti umas "trocentas" vezes ...

bjux

;-)

Penetralia

18 de junho de 2009 09:51
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disse...

Li o livro e adorei.

O filme vi duas vezes, mas é para se ver muito mais vezes!

Vanessa

18 de junho de 2009 10:17
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disse...

Estou em falta com Felini, só vi E la nave vá e Julieta dos Espiritos. Colocarei na lista.

:-)

Abraço

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disse...

Excelente lembrança com essa sátira;))
Li o livro e vi o filme e cada vez mais estou atenta aos "Gaios Petrônios" que passam os dias mergulhados no sono e as noites nas ocupações e prazeres da vida. E cuja indolência o guindou (ooops falei no singular porque penso numa figura que se diz líder dos fracos e oprimidos e mto pop no Brasil, hoje) à fama. E, não sem como nem por que(?)não é considerado um libertino nem é visto como perverso mas sim homem de opinião e gosto sui generis;)

Olha, vc deu uma bola dentro com essa postagem. Parabéns!

Cris Caetano

18 de junho de 2009 13:17
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disse...

Gostei! Vi há muuuito tempo. Estava mesmo precisando de uma dica, tô super a fim de passar o sábado agarrada ao eldredon, mas domingo uma expo, porque não sou freira enclausurada. haha

Beijinhos

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disse...

Felini, é muito bom... Um clássico! Adoro as coisas dele.
maravilha isto aqui. Beijos e quanto a ida do Sarney e da moçoila pra... podiam ir e levar mais alguns com eles e eplodirem no ar...
Um beijo, CON

Mauri Boffil

19 de junho de 2009 09:36
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disse...

Ai, nunca vi esse... vou procurar na locadora.
Bjs.

Carla Martins

19 de junho de 2009 10:23
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disse...

Na correria, passando só pra desejar um bom finde!!!

Carla Martins

19 de junho de 2009 11:20
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disse...

Verdade....é demais, né? Fiquei super animada quando vi! :)

Paulo Braccini

19 de junho de 2009 13:40
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disse...

oi amigo desculpe mas fui moderar o seu coment lá no meu blog sobre o calendário e sem querer deletei ... please ... comenta de novo ... rs ...

bjux

;-)

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disse...

Nao consegui ver esse trecho no youtube no dia em que tentei. Deu alguma zebra.

Ei, James, vc conhece o Rodrigo Palhares, professor de Sistemas aí em Itaúna?