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Poesia-Encontro(Cecília Meireles-1901-1964)

Desde o tempo sem número em que as origens se elaboram,
se estendem para mim os seus braços eternos,
que um estatuário de caminhos invisíveis
construiu com a cor e o frio e o som morto de mármores,
para que em teu abraço haja imóveis invernos.

Tu bem sabes que sou uma chama da terra,
que ardentes raízes nutrem meu crescer sem termo;
adestrei-me com o vento,e a minha festa é a tempestade,
e a minha imagem,como jogo e pensamento,
abre em flor o silêncio,para enfeitar alturas e ermo.

Os teus braços que vêm com essa brancura incalculável
que de tão ser sem cor nem se compreende como existe
-são os braços finais em que cedem os corpos,
e a alma cai sem mais nada,exausta de seu próprio nome,
com uma improvável forma,um vão destino e um peso triste.

Pois eu,que sinto bem esses teus braços paralelos,
na atitude sem dor que é o rumo e o ritmo dessa viagem,
digo que não cairei com uma fadiga permitida,
que não apagarei este desenho puro e ardente
com que,de fogo e sangue,foi traçada a minha imagem.

Eu ficarei em ti,mísera,inútil,mas rebelde,
última estrela só,do campo infiel aos seus escassos.
E tu mesma achará pasmos de lagos e areias,
diante da forma exígua,sustentada só de sonho,
mantendo chama e flor no gelo dos teus braços.

Encontros e desencontros


Ela saiu às oito horas.A rua,quente e seca,ainda estava vazia.Insetos zumbiam pelo ar.Caminhava devagar,pisando firme a calçada irregular.E ter que ir ver Luís de novo,meu Deus!

Tudo novamente:a discussão inevitável,a hesitação que a enfurecia,as palavras trocadas em jatos.Como tudo isso a entediava.E se as pessoas ao invés de viverem na sofreguidão aparentemente eterna de suas vidas,parassem e sentassem num banco de jardim,para ter como única companhia a si mesmo?O pulsar frenético de sua vida a fazia sentir-se cansada.Queria um pouco de dormência,de lassidão.A indolência consentida,os tumultos apagados.

No cruzamento com a avenida apareceram pessoas.Crianças e adolescentes a caminho da escola;a velha apressada com uma echarpe ondulante enrolada no pescoço,maquiadíssima(o que estaria fazendo ali?);o mendigo habitual da esquina com suas mãos sujíssimas e o cachorro amarelo de olhos calmos,sentado ao lado de uma caixa de papelão.

E se estava indo se encontrar com Luís,deveria mesmo esperar pelos sinos que começavam a retumbar em seus ouvidos.Não tinha nenhuma esperança de compreender qualquer sentimento.Sua mente,que não era dessas chamadas poderosas ou inescrutáveis,simplesmente oscilava entre o desprazer do corriqueiro.Não deveria esperar nada de Luís,que não fosse o reflexo de seu próprio egoísmo,o confronto de vontades refletidas em um espelho.

Parou no ponto de ônibus lotado.O calor já estremecia tudo.Mulheres com ar entediado carregavam sacolas de compras e ela,pronta para um desenlace qualquer.

Poderia cortar agora mesmo seus fios desconexos com o homem com quem vivera por tantos anos.Mas além de desconexos,esses fios tão finos e filigranados,lentamente se arrebentavam,tão degradados estavam.E parada ali,ela sofria,por todas as possibilidades e impossibilidades de sua vida.O ônibus chegou.Entrou.E assim foi ao encontro de algo que não conhecia.