Encontros e desencontros


Ela saiu às oito horas.A rua,quente e seca,ainda estava vazia.Insetos zumbiam pelo ar.Caminhava devagar,pisando firme a calçada irregular.E ter que ir ver Luís de novo,meu Deus!

Tudo novamente:a discussão inevitável,a hesitação que a enfurecia,as palavras trocadas em jatos.Como tudo isso a entediava.E se as pessoas ao invés de viverem na sofreguidão aparentemente eterna de suas vidas,parassem e sentassem num banco de jardim,para ter como única companhia a si mesmo?O pulsar frenético de sua vida a fazia sentir-se cansada.Queria um pouco de dormência,de lassidão.A indolência consentida,os tumultos apagados.

No cruzamento com a avenida apareceram pessoas.Crianças e adolescentes a caminho da escola;a velha apressada com uma echarpe ondulante enrolada no pescoço,maquiadíssima(o que estaria fazendo ali?);o mendigo habitual da esquina com suas mãos sujíssimas e o cachorro amarelo de olhos calmos,sentado ao lado de uma caixa de papelão.

E se estava indo se encontrar com Luís,deveria mesmo esperar pelos sinos que começavam a retumbar em seus ouvidos.Não tinha nenhuma esperança de compreender qualquer sentimento.Sua mente,que não era dessas chamadas poderosas ou inescrutáveis,simplesmente oscilava entre o desprazer do corriqueiro.Não deveria esperar nada de Luís,que não fosse o reflexo de seu próprio egoísmo,o confronto de vontades refletidas em um espelho.

Parou no ponto de ônibus lotado.O calor já estremecia tudo.Mulheres com ar entediado carregavam sacolas de compras e ela,pronta para um desenlace qualquer.

Poderia cortar agora mesmo seus fios desconexos com o homem com quem vivera por tantos anos.Mas além de desconexos,esses fios tão finos e filigranados,lentamente se arrebentavam,tão degradados estavam.E parada ali,ela sofria,por todas as possibilidades e impossibilidades de sua vida.O ônibus chegou.Entrou.E assim foi ao encontro de algo que não conhecia.

8 comentários:

Eu

25 de abril de 2009 12:20
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disse...

Lindo! Só resta saber o desenrolar da história, né?? Parabéns pelo texto!
Beijinhos
Elida

Philip Rangel

25 de abril de 2009 22:35
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disse...

Muito bom o texto..sera q encontram???

Lou

26 de abril de 2009 09:43
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disse...

A profundidade do tema é suavizada pela escolha da abordagem: discorre-se sobre cenas do cotidiano de forma simples, introduzindo o leitor à problemática das relações. Quando o leitor se dá conta, já está imbricado na trama.

Abraços,
Lou

james p.

26 de abril de 2009 11:06
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disse...

'Eu',a verdade é que escrevi um conto bem mais longo,e tive que editar para encaixa-lo na blogagem.Mas vou postar mais contos agora.Acho que precisava de um empurrãozinho.Obrigado pela visita.abraço.

james p.

26 de abril de 2009 11:07
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disse...

Philip,se encontram sim.Vou postar talvez o conto na íntegra,que é bem mais longo.Abração.

james p.

26 de abril de 2009 11:09
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disse...

Lou,obrigado pela comentário.Tentei mostrar uma mulher(ou poderia ser um homem também)um pouco confusa em relação a seus sentimentos,tentando entender os porques do fim de uma relação.Obrigao pela visita e um abraço do James.

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disse...

As separações podem ser benvindas.
gostei do texto

james p.

26 de abril de 2009 18:00
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disse...

Com certeza.não só de encontros vivemos.ás vezes as separações podem ser tão necessárias quanto os encontros.Abraço.