Leitura Coletiva-"Orgulho e Preconceito"-de Jane Austen



O crítico literário palestino Edward Said disse que "enquanto as heroínas e os heróis de Jane Austen tomavam seus chás em seus chalés rurais e dançavam minuetos nos saraus campestres da pequena nobreza inglesa,milhões de negros escravos se esfalfavam de trabalhar nas dezenas de colônias britânicas na África."Said queria dizer que o estilo de vida despreocupado das personagens de Austen era devido ao conforto e o lucro proporcionado pela brutal exploração colonial inglesa.O que ele não levou em conta foi que a vida social tem muitos outros aspectos que a exploração vil do ser humano pelo ser humano.E foi falando do ser humano como ser moral,que Jane Austen (1775-1817),escreveu sua obra avassaladora e revolucionária para sua época.
Em todos seus livros,Austen fala da pequena nobreza rural inglesa,que,ao contrário do que muitos pensam,nem sempre tinha dinheiro sobrando.Em um tempo e uma sociedade em que o casamento era a norma para a vida de todos,a escritora analisa as relações sociais com uma ironia e um refinamento poucas vezes vistos na literatura inglesa.
"Orgulho e Preconceito"(Pride and Prejudice),publicado em 1813,é um dos romances mais lidos e queridos de Jane Austen.A estória de Elizabeth Bennet é emblemática da escrita de Austen.Elizabeth é uma heroína positiva-uma jovem mulher relativamente pobre,que não pode esperar um dote para se casar,que tem 4 irmãs
também esperando um casamento,que tem uma mãe lamentável e um pai que ama e respeita.Nela,Austen colocou-se como uma mulher que luta ,não necessariamente por um lugar ao sol,mas pelo direito de ser ela mesma-artigo caro e raríssimo na época(daí,uma das facetas inovadoras da obra).
Não causa espanto que Jane Austen não tenha tido quase nenhuma repercussão em sua época.Mulheres como Elizabeth,sua irmã Jane,(e Emma,Anne,e outras heroínas de outras obras),se comportam não como meras marionetes românticas,mas como pessoas que querem se mover de verdade em suas pequenas esferas sociais,entretecidas de pequenas verdades,fofocas mais ou menos inofensivas e conformismo quase total.
Austen dá a Elizabeth os dilemas da dúvida,as aflições da incerteza,e o consolo supremo de ser uma pessoa sensata.E a leva,passo a passo,pela senda do amor,supostamente vinculado a dotes e sutilezas sociais.Sua antítese é a figura grotesca de Lady Catherine de Bourgh,mulher um tanto caricata,que parece carregar o peso de sua classe social como um emblema da grosseria e da empáfia.Nada mais horrível aos olhos de Lizzie,que como uma boa heroina protestante,abomina qualquer tipo de abuso,seja verbal ou social.
A figura de Fitzwilliam Darcy aparece como em uma comédia de erros,em que o homem a princípio supostamente abominável,vai dando lugar ao ser de carne e osso,ele também,lutando contra um ordem social que não emula nem um pouco o amor e a compreensão mútua.Mesmo que tenhamos certeza que Lizzie e Darcy ficarão juntos,assistir ao desenrolar de suas peripécias amorosas e existenciais não tem preço.
Não é à toa,que hoje Jane Austen ocupa seu elevado patamar na literatura inglesa,ao lado de Shakespeare,Dickens,Charlotte e Emily Brontë,George Eliot,Virginia Woolf e Thomas Hardy.Seu estilo inovador,seu moralismo saudável,seu humanismo,e principalmente,sua imensa sinceridade literária ,lhe deram a imortalidade,que ela ,como poucas pessoas de letras,mereceu plenamente.

Imagem daqui


5 comentários:

Luciano A.Santos

6 de novembro de 2009 14:00
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disse...

James,

Infelizmente não pude participar desta coletiva, mas Orgulho e Preconceito está na minha lista dos que serão lidos durante as férias.

Excelente post, abraços.

Paulo Braccini

6 de novembro de 2009 15:38
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disse...

conheço pouco a obra dele ... precisando aprofundar ... ótima lembrança amigo ... me despertou para ele de novo ...

;-)

Vanessa

6 de novembro de 2009 15:57
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disse...

Que delícia ficou seu texto. Sou tão fã de Jane Austen que sou suspeita para comentar,James. Amei a postagem.

bjs

Dalva

6 de novembro de 2009 23:11
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disse...

Adoro Jane Austen... e não me importo com o que dizem os críticos! Seus livros sempre me encantaram, exatamente por essa ironia e refinamento que vc tão bem descreveu!

Bom fim de semana!

Bjs.

Tais Vinha

10 de novembro de 2009 09:26
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1

disse...

James, muito bom seu texto. Eu participei da roda de leitura, mas como amadora. Não entrei nas profundezas da trama, mas me encantei profundamente com a riqueza de detalhes com que os personagens são construídos. No final do livro, tem-se a impressão que são velhos conhecidos e que deixarão saudade. Das personagens paralelas, a que mais me encantou foi a Lydia. Achei-a sensacional para a época. Atirada, exibida, namoradeira, deprovida de pudores e culpa. Uma verdeira Youtubete do passado.

Depois de ler o livro, aluguei o filme, versão 2005 e achei que eles conseguiram retratar muito bem o contraste entre as classes sociais. Dá para ver que os Bennets vivem no limite de sua renda e que salto é para o Sr. Darcy se unir à uma moça daquela família. (Salto ou queda, depende do ponto de vista.)

Essa questão da renda das famílias inglesas sempre me intrigou, pois na literatura e nos filmes daquela época, ninguém nunca trabalha. Achei interessante você começar seu texto com a questão das colônias, pois para mim sempre foi a única explicação possível para esse dolce far niente. O livro e o filme me fizeram ver que não era bem assim. Era uma sociedade não consumista. Nas classes inferiores, as moças costuravam suas próprias roupas, bordavam e as fazendas produziam o alimento. Claro que tinha a renda das colônias, mas elas não mantiveram uma nação inteira no ócio.